Translate this blog

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Deus contra si mesmo?


 Este texto é continuação do anterior cujo título é “Deus”.
Naquele texto supus que o Deus guerreiro e excludente do Antigo Testamento (AT) é uma invenção dos judeus. Apresentei algumas razões para isso. Essas razões são constituídas na diferença de comportamento entre esse judaico Deus e Jesus que Se apresentou como Seu representante legítimo.
Imagino que quando Jesus afirmou que Ele e o Pai eram um (Jo 14: 9,10 ) e quem vê a Mim vê o Pai estava querendo enfatizar a unidade no caráter de ambos. De igual modo suponho que Ele não teria Se confrontado com os fariseus se partilhasse do pensamento deles.
Hoje retomo essa questão de um Deus forjado pelos judeus com base em algumas contradições internas. Penso que Deus não pode ser contra Si mesmo.
Quando houve a divisão das tribos e as dez tribos do norte com capital em Samaria deixou de prestar obediência aos descendentes de Davi, os samaritanos  foram excluídos da amizade, do respeito e do direito de participar do culto no templo de Salomão com a anuência do Deus dos judeus. Jesus algum tempo depois reintegra esse povo começando o seu trabalho por uma mulher mal vista (Jo 4) até no seu próprio povoado. Parece que Ele quis mostrar que o pior samaritano não era pior do que o melhor judeu.
Ele não poupou elogio aos samaritanos.  No breve relato dos evangelhos vemo-Lo elogiando um ex-leproso samaritano (Lc 17) e a bondade de um viajante, também samaritano (Lc 10). Por que samaritano se a estória comportaria qualquer um?
No quinto livro da Torá vemos Deus excluindo os povos da comunhão com Ele e depois vemo-lo mandando Jonas pregar a um povo que não sabia distinguir a mão direita da esquerda (Jn 4:11) e inimigo dos judeus.
Como o povo judeu era exclusivista e procurou isolar-se do todos ao redor Deus o enviou ao cativeiro babilônico por setenta anos (cerca de três gerações) para que aprendesse a viver entre os outros (Dn 9).
A pergunta que fica é: como um Deus que exclui pode se preocupar com a inclusão? Estaria Deus agindo contra Si mesmo?
O povo judeu viu-se como peculiar, propriedade particular (Dt 7:6), e esqueceu-se que essa particularidade estava na responsabilidade de ir até os outros povos e incluí-los nas bênçãos celestiais. Quando Jesus expirou na cruz e o véu do santuário rasgou de alto a baixo (Mt 27:51) estava explicito o rompimento de Deus com os judeus, com aquele sistema fechado de culto, com aquela visão de divindade truculenta e excludente.
Ele não concordava com o que ensinavam sobre Ele.
Não consigo ver Jesus como o Deus do AT. Um Deus que estabelece um programa rígido e servil de adoração.
As questões que me importunam  são:
1.      Queria Deus que o povo fosse mantido sem criatividade para adorá-Lo? Nesse caso, onde estaria o livrearbítrio e a espontaneidade?
2.      Uma ovelha-homem não é igual a uma ovelha do gênero ovino. As duas devem seguir o pastor, mas,  com a mesma imbecilidade? Deus trataria a mim e a você com os mesmos critérios com que um pastor cuida do rebanho: vigiando cada passo e impedindo que “fujam” do caminho?
3.      Um pastor contenta-se com a lã, o leite e a carne das ovelhas. Elas são criadas para isso. Deus nos criou para sermos explorados por Ele? 
4.      Um pastor alegra-se com o simples lamber da mão por uma das suas ovelhas, num gesto simplório de gratidão. É o melhor que ela pode fazer. Sua limitação cerebral não lhe permite expressar-se de outra forma. Deus Se contentaria com um culto engessado, excessivamente formal? Um gesto programado, palavras repetidas são agradáveis a Deus (Mt 6:7)? Não haverá algo melhor que possamos oferecer? O que seria um culto racional (Rm 12:1)?
Essas questões fazem sentido na medida em que pensamos em que Deus nós servimos. Se é a um Deus truculento que servimos é melhor não correr riscos, e variar o culto é correr riscos. É melhor olhar o “programa impresso” porque um resvalo pode ser fatal. Se servimos um Deus sério, mas amigo, um culto racional faz sentido.
Nova Andradina 22 de agosto de 2011
Antonio Sales                                               profesales@hotmail.com

sábado, 20 de agosto de 2011

Deus


Não sou teólogo. Minhas reflexões não possuem nenhuma base teórica. Tudo o que escrevo sobre Deus é produto das minhas reflexões, do meu livre pensar. Pode ser que um dia tudo isso evolua para uma teoria, mas pode ser que não evolua para nada. Estou em construção das minhas ideias sobre questões teológicas. O leitor deve ler este artigo com cuidado e me avisar se pisei em falso.
Tenho algumas questões que me angustiam. Suponho que estamos aceitando muita informação sobre Deus que não corresponde à verdade e que não engrandece o Seu caráter.
É quando comparo o Deus do Antigo Testamento (AT) com Jesus que fico com algumas interrogações. O Deus do AT parece-me um Deus decidido, que age, que faz enfrentamentos, que derrota e que interfere nas decisões humanas. Um Deus que se impõe inclusive nos detalhes da vida cotidiana.
Jesus parece-me diferente. É um Deus tolerante, que suporta a afronta e que deixa os homens resolverem os seus próprios problemas. Ele estava mais interessado em convencer os homens da supremacia do amor, da tolerância e do diálogo do que impor a Sua vontade e fazer valer a Sua autoridade.
O Deus do AT marcou povos inteiros para morrer em favor de Israel enquanto Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (Mt 5:44)”.
As diferenças entre os dois são tão marcantes em alguns aspectos e as semelhanças são igualmente marcantes em outros aspectos que chego a supor que muito do que é atribuído ao Deus do AT é invenção judaica.  Com isso quero dizer que os suponho fazendo certas barbaridades e depois atribuindo a Deus. Matavam em nome de Deus.
Algo semelhante ao que acontece hoje: fala-se muita bobagem em nome de Deus nos púlpitos evangélicos. Faz–se muita pressão psicológica, muita lavagem cerebral, muitas ameaças que Deus não faria ou não autorizaria, se fosse consultado.
Algumas semelhanças entre Jesus e o Deus do AT:
1.                      Jesus condenou a hipocrisia do povo judeu; condenou a exploração das viúvas e órfãos (Mt 23:14). O Deus do AT enviou profetas (Miquéias, Zacarias, etc.) para expor a hipocrisia do povo que trazia vultosa oferta ao templo a custa de “balanças” desonestas, a custa de exploração do trabalhador.
2.                      Jesus compadecia-Se dos sofredores, dava orientação e curava as suas feridas. O Deus do AT libertou o povo escravizado e constituiu sacerdotes, profetas e juízes para orientá-lo.
3.                      Jesus orientou aos discípulos que deveriam pregar a todo mundo e ensinar o que Ele pregou no Sermão do Monte (Mt 5-7). Deus conduziu Jonas a Nínive para levar a mensagem de arrependimento aos ninivitas.
4.                      Jesus disse que devemos ser luzes para alumiar o caminho do que estão em trevas morais (Mt 5:13-16). Deus disse que o povo judeu deveria ser luz para os gentios (Isa 60:1 ).
5.                      Jesus aceitou seguidoras provindas de um nível moral pouco recomendado socialmente, dispensou atenção a uma cananeia e acolheu publicanos (Mat 9:9; MT 15;Mt 26:6-13; Lc 19). Deus aceitou o culto de Raabe, de Rute e ansiava ver os gentios sendo acolhidos em Sua casa de oração (Jos 6;Isa 55).
 Há muitas semelhanças. Todas as semelhanças estão concentradas na preocupação com a salvação e a elevação do nível ético e moral do povo. Na preocupação em mostrar amor e ensinar a amar. Na libertação dos oprimidos do preconceito e anunciar “Boas Novas”. São semelhantes no cuidado com a saúde física e recuperação da autoestima das pessoas que sofrem qualquer estigma.
Há diferenças também entre Eles.
1.                      Jesus disse que o Seu reino não era deste mundo e o Deus do AT mandou destruir aqueles que não concordavam com a constituição de uma nação teocrática (Dt 7:6).
2.                      Jesus ordenou que os Seus discípulos fossem a todo mundo pregar o evangelho e o Deus do AT isolou o povo judeu, mandando que mantivesse distância dos povos ao redor.
3.                      Jesus suportou Judas entre os Seus discípulos embora soubesse das falcatruas que fazia e Deus do AT mandou apedrejar um homem porque colhia lenha num dia de sábado (João 12; Nm 15:33).
4.                      Jesus disse que Deus manda chuva e sol sobre maus e bons e Deus do prometia bênçãos somente para o povo escolhido (Mt 5:45; Dt 7).
5.                      Jesus disse que não havia razão para proibir um homem de pregar e curar somente porque este não O seguia e Deus mandou matar os feiticeiros (Mc 9:39).
6.                      Jesus disse que enviaria os Seus discípulos como ovelhas no meio de lobos e Deus mandou eliminar os “lobos”.
7.                      Jesus deixou que os homens resolvessem os seus próprios problemas familiares e Deus interferia nas decisões pessoais.
Essas semelhanças e diferenças quando se eleva em conta que Jesus disse que Ele e o Pai eram um tem me levado a supor que o Deus do AT, com as características de truculento, foi uma criação dos judeus para justificar as atrocidades cometidas contra os povos de Canaã. Querendo constituir uma raça pura e evidenciar que adoravam um Deus forte eles cometiam atrocidades em nome de Deus. Os líderes judaicos queriam dominar na forma de uma ditadura que interferia inclusive da vida particular e usavam Deus como escudo.
Há mais uma razão para  pensar assim: Jesus quando usou as Escrituras Hebraicas focalizou atenção no que elas diziam a Seu respeito e disse que os líderes judeus erravam não conhecendo as Escrituras. Eles conheciam as Escrituras que apresentavam um Deus tirano e Jesus queriam que conhecessem as Escrituras do Deus de amor (Mt 22:29;Lc 24: 27).
Campo Grande, 20 de agosto de 2011 
Antonio Sales                                                                    profesales@hotmail.com

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Homem, a Lei e a Graça em Romanos- V




Já dissemos que segundo nosso entender Paulo não está discutindo a lei e sim a nossa relação com ela. Quando essa relação está enferma, porque o legalismo se instalou, não é fácil discuti-la e qualquer afirmação que se faça o legalista pergunta: “e a lei onde fica?”. Paulo se imagina confrontando com esse tipo de pergunta e responde: a lei fica no lugar que Deus reservou para ela: orientar.
Entendo que a lei pode exercer varias funções distintas  (lembrando que lei tem sentido amplo, incluímos as convenções na categoria de lei).
Uma função é coibir, inibir a violência, o abuso ou incômodo. Essa função fica explícita nos preceitos: “não matarás”, “não adulterarás”, “não estacione na calçada” etc. Explicitam o que não deve ser feito.
Outra função é orientar. “Tudo que quereis que os homens vos façam fazei-vos a eles também”, a placa de “pare” ou o triângulo na entrada de uma via preferencial e a presença de um cesto de lixo nos falam de orientação sobre a forma correta de agir ou sobre o que se espera de nós. Orientam sobre quais são os limites da nossa liberdade  em determinadas circunstâncias ou melhor, onde termina o nosso direito e começa o do outro em situações em que tais direitos não estão explicitados. Orientam-nos quando estamos na “linha cinzenta”.
Aja com integridade, respeite os sinais de trânsito, seja prudente no falar, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”, são preceitos que indicam uma terceira função da lei: estimular certas práticas.
Em suma: as regras existem, principalmente, como diretrizes para facilitar o relacionamento entre as pessoas. Os preceitos coibitivos são para os levianos, os marginais, e não para os cristãos.
Quando em Rom. 3:31 Paulo afirma que a fé não anula a lei, imagino que ele está pensando na segunda  e na terceira função da lei
Não uso café por decisão pessoal e desde a adolescência. Algum tempo depois me tornei adventista do sétimo dia.  Segundo as orientações recebidas uma das normas da igreja consiste em proibir o uso do café. Mas essa norma não me afetou. Havia abandonado antes, logo eu não estou debaixo dessa regra. No entanto, mesmo no meu caso a regra não perde o valor. Para mim ela foi confirmada. Agora tenho duas razões para não tomar café. A norma não me serve como proibição, mas serve como orientação. Como proibição, estou livre dela, como diretriz sou aliado dela.
Para o apóstolo, o cristão não obedece a lei como proibição mas como orientação. De fato, penso que não faz sentido dizer para um cristão que ele não deve matar, roubar ou praticar coisas do gênero. Um cristão precisa de diretrizes para facilitar o seu relacionamento com os outros, mas não de um vigilante externo para impedi-lo de agir inconvenientemente (1 Cor. 13:4). Precisa de placas orientadoras às margens do caminho e não de um cão feroz depois do muro.
O cristão busca compreender, distinguir a diferença entre tolerância e permissividade, distinguir entre verdades e mitos, definir os limites da sua liberdade, afastar-se do bizarro, agir com decência e zelar pelo bem (1 Cor. 13:5). E não há lei contra essas coisas, não há lei que proíba essa forma de agir. Logo, o cristão está livre da lei (dos preceitos inibidores), é um aliado da lei (dos preceitos orientadores) e é um promotor da lei (dos preceitos estimuladores das boas práticas).
Outros aspectos da vida cristã focalizados por Paulo (Rom. 6:19-23) são a justificação e a santificação. Justificação, no meu entender significa nova oportunidade. Significa Deus dizer: esqueça o que você fez e comece nova vida. Experimente de outra forma.
Santificação, por sua vez, é um termo relacionado com  educação, com o preparo para a vida cristã. Preparo para ser membro de uma nova comunidade, para viver essa nova vida. É preciso ensinar. Esse ensinar isso não é necessariamente a lei dos dez mandamentos. Tem pessoas que nunca pensaram em praticar atos extremos. O que elas não sabem é serem corteses, tolerantes, apoiar o fraco, ajudar quem está com problemas de ordem moral ou espiritual.
Precisamos ensinar. Mas, às vezes dogmatizamos tudo, ficamos repetindo normas ao invés de produzir reflexões. Condenamos ao invés de ensinar. Confundimos ao invés de esclarecer. Desqualificamos as pessoas ao invés de as qualificarmos pela palavra de orientação.


Texto produzido em fevereiro de 2010 e incorporado ao livro: “ O Homem, a Lei e a Graça em Romanos” publicado em abril de 2011.

Antonio Sales
profesales@hotmail.com

O Homem, a Lei e a Graça em Romanos-IV


Terminamos o texto anterior afirmando que Paulo tratava do pecado enquanto ato em potencial, isto e, aquele ato que não foi praticado ainda.  O pecado que “jaz à porta”, o desejo que nos insinua constantemente que devemos praticar algo. Esse é pecado que pode ser controlado pela graça. A graça, ao transformar, confere ao sujeito a força necessária para controlar os seus desejos impuros; para evitar que o desejo mau se consuma.
É desse pecado e que ele está falando em Rom. 6:12. Parafraseando o texto diríamos: não reine o desejo de roubar, adulterar, mentir, ofender, humilhar, etc. Quem está em Cristo é nova criatura (2Cor. 5:17) e superou esses desejos. Seus motivos para não praticá-los não é mais a lei e sim a força que encontrou, na graça, para dominar a si mesmo. Uma pessoa transformada está em pleno domínio dos seus desejos. Essa é a mensagem do verso 12, citado.
Outra passagem que parece oferecer alguma dificuldade é Rom. 7:16 onde o apóstolo diz que “se faço o que não quero consisto que a lei é boa”. Os legalistas pensam que Paulo está defendendo especificamente a Lei dos Dez Mandamentos.
Novamente retomo a Neufeld (2010) que afirmou que a lei em Romanos tem sentido amplo e, de acordo com nossas reflexões em capítulos anteriores, inclui todo obstáculo à prática do mal, isto é, tudo aquilo que dificulta a execução de um plano maldito.
Li algures uma ilustração que relato aqui conforme minha memória permite. Não estou certo de se tratar de um caso verídico e o mais provável é que não seja mesmo. Narro aqui como ilustração apenas porque entendo que nos ajuda a entender Rom. 7:16.
Dizia a estória que um rapaz, viciado em droga, desejou abandonar o vício por suas próprias forças. Passou um dia sem usar mas no outro dia entrou em crise de abstinência e enlouquecido mergulhou na droga novamente. No entanto, não se deu por vencido e manteve o plano de livrar dela. Foi à loja de ferragens e comprou um pedaço de corrente e um cadeado. Chegando em casa chamou a mãe falou-lhe do seu plano e apontando para uma robusta árvore no quintal combinou com ela  o procedimento que esperava dela para ajudá-lo. Disse-lhe que a avisaria quando começasse sentir os primeiro sintomas da crise  de abstinência e que ela deveria amarrá-lo naquela árvore e mantê-lo amarrado por pelo menos 48 horas que era, pelas informações que tinha, o tempo necessária para a crise ser superada.  Informou-a que nesse tempo ele, por certo, pediria a ela muitas vezes que o soltasse, choraria, gritaria enraivecido, machucar-se-ia, mas ele não deveria ouvir os seus clamores antes que ele se acalmasse e desse sinais de sanidade. Passada a crise, disse ele, o desejo de beber água e comer voltaria, o desespero cessaria e então ela deveria soltá-lo e cuidar da sua recuperação física.
Diz a estória que o rapaz venceu o vício, mas, como foi dito, é uma ilustração apenas.
Vamos à sua aplicação: se alguém quer deixar o vício e não consegue então ele concorda que a lei de amarrar o viciado na árvore é boa porque o ajuda no seu intento.
Se alguém quer deixar de fumar, mas não está controlando o seu desejo de fumar, vai desejar que não haja tabaco à disposição. Que os cigarros despareçam para não ser tentado.
Quem não quer roubar, mas não controla os seus impulsos vai concordar que ter um cachorro bravo no quintal do vizinho é uma boa coisa pois pelo menos assim ele não rouba. No meu entender é isso que Paulo está dizendo: a lei (a vigilância) é boa para não controlar quem não se controla.
Antes de terminar este capítulo devo lembrar o leitor de duas coisas. A primeira é que este texto é uma sequência e se alguém perdeu os primeiros capítulos possivelmente não tenta entendido este. Se desejar faça contato que mandaremos o texto completo.
A segunda coisa a lembrar é o nosso pressuposto de que Paulo (em Romanos) não está discutindo a lei. Para ele ela existe, é boa, santa e justa e ponto final. O problema que Paulo quer resolver é a relação entre o ser humano e a lei. Essa relação ficou enferma, confusa, depois que os judeus lançaram o “veneno” do legalismo. Os judeus haviam lançado dúvida sobre o poder da graça para moldar a vida e por essa razão Paulo faz constantes “apelos” ao nome de Jesus, à Sua morte e ressurreição. Ele quer que entendamos que o motivo de não pecarmos não deve ser a lei e sim a graça. Que não deveríamos precisar de controle externo como os judeus supunham.

Referência
NEUFELD, Don F. A Redenção em Romanos. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010 ( Lição da Escola Sabatina, adultos, julho a setembro de 2010)

Texto produzido em Janeiro de 2011 e incorporado ao livro: “ O Homem, a Lei e a Graça em Romanos” publicado em abril de 2011.

Antonio  Sales
profesales@hotmail.com


O Homem, a Lei e a Graça em Romanos-III



Três Concepções de Pecado- II
Antonio Sales
profesales@hotmail.com
Falamos em três concepções de pecado: condição humana, ato praticado e ato em potencial. Sobre as duas primeiras concepções discorremos no texto anterior.
A terceira concepção de pecado é: ato em potencial. Isto é, o desejo ou pensamento que não se concretizou por falta de oportunidade ou por medo de ser apanhado. É o ato que está inibido pela lei. E tanto pode ser uma lei explícita como uma lei implícita. Essa lei pode ser apenas o temor das conseqüências do ato. Tanto pode ser a presença de um vigilante como a ausência do objeto desejado.
Quando a pessoa tem o desejo de cometer um ato maldoso e não pratica por medo de alguma coisa ou porque ainda não teve a oportunidade, dizemos que ela está debaixo da lei; está sendo controlada pela lei. A sua motivação para viver como “boa” pessoa é o cerceamento decorrente da lei.
Lei tem sentido amplo como sinalizou Neufeld (2010). Não se limita à lei dos Dez Mandamentos. É toda norma de saúde, religiosa, civil, convenções ou ausência de algo. Enfim, tudo aquilo que cerceia a prática não recomendada. Tudo aquilo que dificulta a pessoa fazer alguma coisa que ela deseja fazer.
Há pessoas que abandonam o hábito de fumar em presença de uma morte iminente por câncer do pulmão. Essa é a lei que a controla
Se uma pessoa não usa droga porque não encontra a droga ela está sob o domínio da lei (da falta de droga). Está abstinente enquanto a lei (falta de droga) a vigiar. Uma pessoa que não usa droga porque não quer usar embora tenha a droga à sua disposição, é livre da lei (da falta de droga). Rom. 6:17.
Há muitos “violentos” que talvez nunca tenham molestado uma ninguém porque não tiveram oportunidade, não encontraram ninguém mais fraco e desprotegido para  molestar. Estão sob a lei do medo ou a ausência de oportunidade. Há, por outro lado,  muitos que gostariam de poder proteger os mais fracos de qualquer tipo. Eles não estão sob a lei que proíbe a violência. São movidos por outros desejos.
Uma pessoa transformada pela graça abandona os hábitos nocivos por um motivo diferente do temor da morte por câncer (no caso do hábito de fumar). Não pratica a pedofilia em respeito às crianças, não pratica o adultério em respeito ao cônjuge, não mente em respeito ao outro, não rouba porque não tem desejo de roubar.
Mais um exemplo de pecado como ato em potencial: vamos supor que alguém tenha o desejo de invadir  a casa do vizinho e subtrair-lhe um objeto, mas não o fez ainda porque sabe que no quintal do mesmo há um cão feroz que o estraçalhará se pular o muro. Nesse caso o cão é a lei que domina a sua vontade de roubar. Mas, e se ele ainda não invadiu a casa porque sabe que o vinzinho não possui o objeto que ele deseja? De qualquer forma ele está sendo controlado pela lei (a presença do cão ou a ausência do objeto). Está sob a lei.
Qual a concepção de pecado de Paulo em Romanos?
Se com relação ao pecado como condição humana não se fala em culpa também não se fala em escolha. Nesse caso não há interesse prático em discuti-lo. A discussão desse tipo de pecado somente interessa aos teóricos da Teologia. Eles discutirão possíveis formas de Deus lidar com o problema no caso das pessoas que não O conheceram explicitamente, mas procuram andar em conformidade como melhor padrão que puderam obter; pessoas que do ponto de vista moral viveram tão bem quanto conseguiram. È uma discussão interessante, mas sem efeitos práticos e não interessaria a Paulo que estava tratando de questões prática em Romanos.
Do pecado como ato deliberadamente praticado Paulo não gastava tempo discutindo. Ele entregaria diretamente à polícia (se fosse hoje). No seu tempo ele foi muito duro com essas pessoas: entregou-as à Satanás (1Cor. 5:5) “para a destruição do corpo”, isto é, para sofrer as consequência dos seus atos, sem misericórdia. Quem sabe esse indivíduo, ao sofrer diretamente as consequências, se arrependesse pleiteasse a misericórdia divina.
Logo, concluo que Paulo tratava do pecado como ato em potencial. Do pecado que pode ser controlado, que ainda não veio à tona. Daquele pecado que jaz à porta e  pode ser dominado ( Gên.4:6,7). Este assunto continua.

Referência
NEUFELD, Don F. A Redenção em Romanos. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010 ( Lição da Escola Sabatina, adultos, julho a setembro de 2010)
Texto produzido em Dezembro de 2010 e incorporado ao livro: “ O Homem, a Lei e a Graça em Romanos” publicado em abril de 2011.

O Homem, a Lei e a Graça em Romanos-II



Três Concepções de Pecado
Antonio Sales
profesales@hotmail.com
Se creio no poder transformador da graça de Deus (e Paulo cria também) como explicar essa dificuldade em entender o que Paulo disse na sua carta aos romanos sobre a graça e o nosso relacionamento com a lei?
Não há resposta objetiva para esta pergunta. Mas, sem dúvida, influenciam nessa dificuldade as nossas ideais preconcebidas, as orientações que recebemos e até mesmo as pregações que ouvimos.
De qualquer forma parto do pressuposto que há pessoas transformadas pela graça e é a essas pessoas que me refiro quando falo de cristãos.
Antes de prosseguir creio ser oportuno apresentar ao leitor o que considero como dimensões da salvação. No meu entender a salvação tem duas dimensões: a divina e a humana. A dimensão divina comporta conceitos como: graça, perdão, amor ilimitado, tolerância, busca e oportunidade. A dimensão humana comporta apenas o conceito de aceitação. Cabe ao ser humano apenas aceitar ou não aceitar, ser salvo ou não ser salvo (Heb. 2:3).
Para entendermos Romanos precisamos ainda analisar as três concepções de pecado: condição humana, ato praticado e ato em potencial.
Como seres humanos nascemos em um condição desfavorável, em um contexto que nos provoca ira, estresse e o desconfortável sentimento de ódio ou revolta entre e outros desconfortos de ordem moral e emocional além dos inconvenientes de ordem física. Penso que é este o pensamento do salmista (Sal. 51:5) quando afirmou que foi concebido em pecado. Ele se coloca como vítima de um contexto que ele não construiu (originalmente), mas que está contribuindo para que se mantenha. Não somos culpados por essa condição de nascimento e também não o somos por muita coisa que acontece em nossa vida. Quando estamos falando em pecado “original” não faz sentido falar em culpa ou culpados. Podemos falar em vítimas ou herdeiros e consequências.
Imagino que o filho de uma família de fumantes se resolver não aprender a fumar terá muito mais dificuldades do que aquela criança que nasceu em uma família de não fumantes. Os dois poderão aprender ou não aprender a fumar, mas para um a decisão de não fumar deverá ser mais fácil do que para o outro.
. Uns precisam de mais graça do que outros para vencer certos hábitos. Há pessoas que não têm propensão para a bebida, logo precisarão de menos esforço e menos graça para ficar sem beber. Há pessoas que tem propensão para a bebida, essas necessitam de uma dose maior de graça para superar o desejo. Não somos todos iguais.
Mesmo uma pessoa pode ter facilidade para dominar um hábito e dificuldade para dominar outro. Facilidade para compreender uma exigência da lei e dificuldade para entender outra. Cada um de nós precisa de menor esforço pessoal e menos graça para dominar alguns impulsos e  de mais esforço e maior dose de graça para dominar outros.
Até aqui falamos do pecado como condição humana onde não se fala em culpa. A segunda concepção de pecado: á ato praticado. Não um ato acidental, mas aquele ato premeditado, intencional, rebelião declarada, preconceito “carinhosamente” cultivado. Enfim, transgressão aberta. Esse pecado deve receber a punição justa prevista em lei. Aqui não há espaço para a tolerância. Conviver com esse tipo de pecado é permissividade.
Não entram nesta segunda categoria os erros de processo, isto é, aqueles que cometemos enquanto aprendemos, os que cometemos porque no momento da prática nos parecia ser a única maneira viável de agir.  São os erros circunstanciais que não os evitamos porque não os planejamos. Por isso a escritura diz que Deus não leva em conta os tempos de ignorância (Atos 17:30). Os erros de processo devem ser incluídos na primeira categoria, na categoria do pecado como condição humana. De alguma forma herdamos certa dificuldade de acertar. O contexto dificulta o acerto e nos coloca em situações que não gostaríamos de estar. Esse mesmo contexto perverso do nosso viver nem sempre nos permite prever o resultado dos nossos atos.
O pecado como condição humana deve receber tratamento diferente do pecado como ato praticado. Embora ambos tragam consequências os motivos da sua prática são diferentes.
Continuaremos.
Texto produzido em Novembro de 2010 e incorporado ao livro: “ O Homem, a Lei e a Graça em Romanos publicado em abril de 2011.

O Homem, a Lei e a Graça em Romanos

A Lei e a Graça em Romanos
Antonio Sales
Neste texto e outros que se fizerem necessários  estarei discutindo uma questão teológica: a  relação do homem com a lei e com a graça. Não sou teólogo mas essa é uma questão que me inquieta de certo tempo para cá. As explicações até agora encontradas não me satisfizeram embora deva reconhecer que a abordagem de Don F. Neufeld foi fundamental para que alguns pontos, outrora obscuros, começassem ficar mais claros.
Evidentemente que não tenho a pretensão de dar a última palavra sobre o assunto e nem mesmo garantir que o leitor consiga entender o meu raciocínio. Se Paulo, e outros autores mais eruditos do que eu, tiveram dificuldades em explicar o assunto sem deixar  margens para dúvidas então é de se esperar que este texto também tenha a sua parcela de obscuridade. Procurarei, no entanto, ser o mais didático que conseguir ser e usar ilustrações, inclusive de ordem pessoal (como fez Paulo), na tentativa de  contribuir para o entendimento do assunto. De qualquer forma, devo adiantar que se conseguir ajudar o leitor será tão somente porque bebi em ricas fontes ou, como disse o gênio da Física Clássica, Isaque Newton, “se enxerguei mais longe é porque estava sobre os ombros de gigantes”.
Primeiramente devo alertar o leitor que eu parto do pressuposto de que Paulo, na sua carta aos romanos, não  está discutindo a lei. Para ele  a lei existe, é boa, santa  e  justa e ponto final. O problema que Paulo quer resolver  é a relação entre o ser humano e a lei. Essa relação que ficou enferma, confusa, depois que os judeus lançaram o “veneno” do legalismo entre os gentios. Primeiramente, segundo Neufeld (2010), os gálatas foram contaminados e depois os romanos. Paulo, desejando antecipar uma possível ida desses judeus a Roma, escreveu aos romanos tratando do assunto e acabou gerando a polêmica nesta outra carta e levando o problema a esses últimos.
Paulo havia superado a dicotomia entre a lei e a graça  quando aceitou a Jesus na estrada de Damasco  mas, devemos admitir,  não conseguiu atingir os seus leitores com a sua mensagem por que estes já estavam enredados pelo legalismo. Já estavam turvados pelo novo “evangelho” que lhes fora transmitido pelos judeus (Gl 1:8). Os judeus haviam lançado dúvida sobre o poder da graça para moldar a vida e por essa razão Paulo faz constantes “apelos” ao nome de Jesus, à Sua morte e ressurreição. Ele quer que entendamos que o motivo de não pecarmos não deve ser a proibição da lei  e sim a transformação produzida pela graça. A situação na Galácia estava tão confusa que até o apóstolo Pedro ficou indeciso e foi preciso que Paulo o advertisse (Gl 2: 11).
Estou concebendo a graça de Cristo com algo capaz de transformar vidas e produzir o desejo de ser bom. Não escrevo pensando naqueles que supõem ser possível usurpar a graça e também não concebo a possibilidade de haver uma “graça barata”. Entendo que a graça é um presente e, como tal, pode agradar ou não agradar, mas não se falar em preço. Em relação a graça dizemos que ela pode ser aceita ou não, mas não pode ser barateada porque é de graça.
Alguém poderá questionar que algumas pessoas passam toda uma vida frequentando a igreja e não conseguem ser salvas. Esse fenômeno parece ser mesmo verificável, mas não é porque “baratearam” a graça, é porque não a aceitaram. Não permitiram que ela atuasse na vida delas. Portanto, no meu entender, não há “graça barata”; o que há são pessoas não salvas.
Eu acredito que é possível ser transformado pela graça. Creio que com a atuação dela na vida é possível controlar os desejos não saudáveis, fugir da imoralidade, abandonar a arrogância, fugir da hipocrisia e viver honestamente.
Vou além em meu raciocínio. Entendo que se eu não acreditar nessa possibilidade de mudança de vida terei perdido a razão de pregar. Nós os leigos não somos assalariados para pregar e normalmente também não recebemos troféus ou menções honrosas pelos nossos feitos. Nosso produto é tão somente a transformação das pessoas para as quais pregamos. Diante disso, sinto que para ser coerente devo crer que a graça tem poder transformador e que há pessoas transformadas por ela. Entendo que não há nenhuma razão para se fazer algo sem recompensa financeira e sem postular algum prestígio popular quando não se alimenta nenhuma esperança que algumas pessoas serão transformadas e farão alguma diferença na sociedade.
Creio no poder transformador da graça e ponto final.
Este assunto continua no próximo número.

Referência
NEUFELD, Don F. A Redenção em Romanos. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010 ( Lição da Escola Sabatina, adultos, julho a setembro de 2010)
Escrito em 0utubro de 2010 e depois incorporado ao livro: “O Homem, a Lei e a Graça em Romanos”.
profesales@hotmail.com