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sábado, 23 de julho de 2016

A IGREJA NO MUNDO


Por vezes se diz que a igreja é uma instituição criada por Deus para atender propósitos específicos da comunidade tais como: trabalho em conjunto, ajuda financeira aos mais carentes, proteção alimentar, etc.
Penso que esta é uma visão muito restrita do papel de igreja. Também não creio que Deus tenha criado a igreja como uma instituição para servir à comunidade.
A igreja é criação humana para se proteger dos ataques pagãos e da perseguição promovida por alguns grupos ou mandatários. É uma instituição criada para a autoproteção. Nasceu para viver "fechada", voltada para si mesma, para o isolamento. 
Hoje temos dois grupos de igrejas ou denominações religiosas. Um grupo é composto pelas igrejas tradicionais. Suas portas se abrem somente para fazer prosélitos, angariar adeptos, mas não para receber ideias, para conviver com as diferenças, para orientar a convivência tolerante.
Suas portas são fechadas  no sentido de que ela (a igreja tradicional) está voltada tão somente para o futuro, para a vida no além, longe das mazelas da atualidade, numa cidade de ouro e cristal. Não se preocupa com o preparo dos seus membros para o enfrentamento proativo dos problemas da vida atual: empreendedorismo, aconselhamento, mediação de conflitos entre vizinhos ou familiares, inserção responsável na vida pública, entre outras coisas que podem e precisam ser desenvolvidas por pessoas íntegras e competentes. A assertividade dos membros é cobrada, mas não estimulada ou orientada.
Outro grupo é composto pelas igrejas não conservadoras. O leque é amplo variando do evangelho da prosperidade, passando pelas que são  quase conservadoras, até aquelas que parecem existir sem um propósito social definido.
Dentre deste segundo grupo temos as igrejas que promovem assertividade com um enfoque no egoísmo, na autopromoção financeira  e social. O pensamento está centrado nas “bênçãos” que se pode usufruir sendo assertivo. Temos aquelas que, ao que parece, nem sequer pensam que o cristianismo existe para ser “o sal da terra e luz do mundo”.
Nas igrejas tradicionais, ser o sal da terra é manter-se isolado para evitar corromper-se. Para os “seguidores do evangelho da prosperidade”, ser o sal da terra é mostrar que se pode ficar rico sendo evangélico. Para algumas igrejas, ser o sal da terra é um jogo de palavras que ainda precisa ser esclarecido.
A igreja não foi criada por Deus. Ele nos chamou para sermos cristãos, para estarmos no mundo, inseridos na comunidade. Ele não queria que saíssemos do mundo (Jo 17:15-17), que nos isolássemos ou que nos transformássemos em proselitistas, mas que levássemos para a comunidade um estilo de vida.
Antonio Sales
Campo Grande, 23 de junho de 2016.




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

UM TEXTO BÍBLICO DIFÍCIL DE ENTENDER

Há no evangelho segundo Marcos um texto que, no meu entender, oferece alta dificuldade de interpretação. Talvez por não conhecer a língua original em que evangelho foi escrito e por depender de traduções, vejo como sendo muito difícil entender as palavras de Jesus registradas nos versículos 27 e 28 do capítulo segundo desse livro (Mc 2:27,28).
Segundo as versões tradicionais (Almeida Revista e Almeida Atualizada) Jesus teria dito: "o sábado foi feito por causa do homem e só homem por causa do sábado, porque o Filho do Homem até do sábado é senhor". Confesso que como está traduzida me parece que a frase contém certo grau de ambiguidade. Já li mais de uma interpretação, interpretações que se contrapõem, e todas me pareceram ter uma certa lógica. Quando me deparo com uma situação assim costumo criar minha própria interpretação, mas para isso busco informações no contexto.
O problema tem a ver com colher trigo no sábado para comer e tem também uma relação com os dez mandamentos. Dos dez mandamentos, penso que podemos aprender algo que já escrevi em outros textos e vou repetir aqui. Os dez mandamentos foram dados para reprimir um povo inculto que estava saindo de um regime de mais de oito gerações de escravidão, ávido por vingança, sem autocontrole e habituado a não confiar em ninguém.
O não matarás e outros “nãos” ali presentes visavam cercear a agressividade do mais forte contra o mais fraco e impedir que os abusos sofridos no Egito se repetissem. Na primeira parte dos mandamentos também temos vários “nãos” com a finalidade de inibir a prática da idolatria cultivada no Egito. No primeiro mandamento Deus se apresenta como o único em meio a trovões, fogo e relâmpagos como forma de enfatizar que não precisavam de um Deus para cada fenômeno natural.
No sábado Ele tenta recuperar a confiança do povo instituindo um descanso obrigatório e provendo o maná como forma de dizer: podem descansar em Mim. Vocês podem confiar no que Eu digo e nas soluções que apresento.
Esse descanso não foi compreendido pelos judeus. Eles se prenderam ao ato de parar um dia por semana e não ao descanso espiritual que Deus desejava, isto é, descanso na confiança da provisão divina durante a jornada. Paulo, apóstolo, diz isso em sua carta aos hebreus ( Hb 4:8). Hoje, diz Paulo, é preciso aprender que o descanso que Deus queria nos ensinar é que devemos confiar a nossa salvação em Jesus. Da mesma forma que Deus descansou da Sua obra na criação, isto é, da mesma forma como Ele se deleitou contemplando o que fizera e dizendo: como é belo e bom, assim nós também devemos descansar na graça sentindo o refrigério do prazer de sermos escolhidos para a salvação.
 Com essa retrospectiva penso que podemos voltar ao texto do evangelho de Marcos. Nessa perspectiva Jesus teria dito: o sábado foi feito para que o homem aprendesse a arte de descansar após tantos anos de cativeiro, mas saibam que o descanso em minhas palavras é superior porque o que Estou ensinando é superior à guarda do sábado.
Aprender a amar, servir, superar o egoísmo e abandonar questiúnculas agrada mais a Deus do que guardar um dia por semana e ao mesmo tempo viver a hipocrisia de  salvar uma ovelha e permitir que um homem morra. É mais aceitável servir do que defender um dia sem respeitar o direito do outro.
Cristo disse: Sou Senhor (superior) ao sábado e a prática do que ensino vale mais do que o ato de ficar sem trabalhar no sábado.
É isso que entendi.
Antonio Sales                        profesales@hotmail.com

Nova Andradina, 29 de setembro de 2014.

sábado, 7 de junho de 2014

UM AMOR QUE SE MANIFESTA NA AUSÊNCIA



Escrevi no texto anterior que existo porque o outro existe e que me constituo na diferença. Sou professor porque há alguém que é aluno, sou pai porque há alguém que é filho, sou eu porque sou diferente de você e assim por diante. Em alguns aspectos me constituo na diferença e em outros sou dependente da existência outro para existir.
Nessa linha de raciocínio, para mim, Deus só é Deus porque há alguém que não é Deus, ou melhor, consigo saber o que é Deus, porque conheço alguém que não é Deus.
Consigo imaginar a sua perfeição por oposição à imperfeição que conheço. Penso em um Deus de bondade e o almejo assim, porque a maldade me incomoda.   Se não conhecêssemos os contrários não teríamos  como definir bondade, perfeição, professor, pai, etc.
Imaginemos um professor dos anos iniciais que,  muito solicito em definir para o seus o que é um número natural, dissesse aos alunos: “número natural é aquele que serve para contar”. Um garoto ativo perguntaria ao pai, após a aula: “tem número que não serve para contar?”.
 Não conhecendo outros conjuntos numéricos essa definição não faria o menor sentido para o aluno, embora fizesse para o professor.
 Supomos ser possível existir Deus sem que exista ser humano, nas não é possível explicar o que é ser Deus sem esse não ser. Entendemos Deus como algo que não é humano. Confesso que tento imaginar que seria um criador sem criaturas, mas não consigo.
 Para escapar dessa discussão Deus diz que Ele é Aquele que É. “EU SOU” disse a Moisés (Êx 3: 14). Eu Sou aquele que é, cuja existência independente da sua, teria dito Ele a Moisés.
Nisso Deus é diferente de mim. Enquanto eu sou porque não sou, Ele é porque é. Enquanto eu me constituo na diferença  Ele diz se constituir por si mesmo. Aí está algo que não consigo compreender, que escapa ao meu nível intelectual. Imagino que seja um dos mais complexos mistérios da fé cristã. Não consigo imaginar um criador sem criatura, um pai sem filho, um governador sem governados. São minhas limitações.
Talvez Ele seja criador de Si mesmo. Aquele que se basta a si mesmo, que se mede por si mesmo. Não consigo penetrar nesse mistério.
Para nós, humanos, dizer que eu sou do meu tamanho parece óbvio demais para ser aceito como definição de tamanho. Dizer que sou igual a mim, que me pareço comigo mesmo, parece piada que se faz entre amigos. Quando Deus diz que É como É me deixa confuso.
Posso afirmar que sou porque não sou. Sou masculino porque não sou feminino, sou humano porque não sou Deus e nem irracional, sou idoso porque não sou jovem, e assim por diante. Essa concepção de mim mesmo traz implicações importantes tais como: sou responsável pelos meus atos porque não sou controlado. Sou livre porque não me permiti ser escravo. Sou responsável pelo que falo e escrevo porque não há ninguém ditando para mim as palavras que escrevo.
Pensemos agora na hipótese absurda de Deus estar ditando em meus ouvidos as palavras que escrevo. Nesse caso, eu não seria o autor, não seria o artista da palavra, seria uma máquina de escrever. O autor seria Ele. Se os profetas tivessem simplesmente repetido o que Deus lhes dissera, seriam simples papagaios ou máquinas falantes.
Uma mãe que recebesse orientações diretas de Deus para educar os seus filhos não seria mãe no sentido pleno da palavra. Seria uma matriz, uma geradora de filhos.
A plenitude humana somente é alcançada quando assumimos a responsabilidade por aquilo que fazemos. A plenitude está na liberdade, na ausência de imposições.
Nesse ponto faço uma bifurcação no meu arrazoado. Aponto para duas conclusões distintas nessas considerações.
 A primeira é que Deus, em Seu amor para com o ser humano, precisa se ausentar para que possamos crescer, para que possamos desenvolver nossas potencialidades. Nosso crescimento físico, moral e ético depende de enfrentamentos dos problemas que surgem e frequentes tomadas de decisão. Dessa forma, diferentemente do que pensamos, por mais estranho e paradoxal que pareça, o amor de Deus se manifesta na Sua ausência, a sabedoria de Deus Se revela no Seu silêncio diante das nossas orações (porque estimula a buscar saídas, criar soluções), o Seu cuidado se revela na autonomia que nos concede para agir (porque produz responsabilidade).
Preciso ser e, para ser, preciso não ser. Isso tem implicações tais como: preciso aprender a ser responsável e para isso é preciso que não seja sempre protegido. Preciso desenvolver a minha identidade pessoal, ser diferente dos outros, ter minhas próprias realizações, mas para isso preciso não ser controlado,  não ser assistido a todo instante.
As mães excessivamente cuidadosas criam os "filhinhos da mamãe" e os professores tradicionais produzem  alunos que não pensam. Para ser humano preciso não ser uma cópia de Deus e Ele sabe disso.
A segunda bifurcação nessa estrada que esbocei é uma crítica ao modo como se comportam certos pregadores de determinadas denominações religiosas que tenho visitado. Partem do pressuposto de que foram inspirados por Deus para proferir o sermão. Consideram-se isentos de erro no que falam, isto é, posicionam-se acima da critica dos seus ouvintes porque, dizem eles, receberam e transmitem a palavra  de Deus. O problema dessa perspectiva é que os pregadores não crescem como pessoa e nem como expositores de uma mensagem. Se estão assessorados por Deus, então não precisam procurar melhora na sua exposição. Se representam  a Deus, então não são humanos normais, são dotados de autoridade sobre-humana. Tornam-se extraterrestres ao apresentar o seu discurso perante a congregação.
Nesses casos, suponho que Deus não confia neles, pois, se confiasse os deixaria errar para aprender. Suponho que Deus não os ama, pois, se os amasse dar-lhes-ia-autonomia. Se os amasse faria com eles o que fez com Adão e com Caim. Daria liberdade de escolha. Esse é o modo divino de amar: dar liberdade e responsabilizar.
O mais provável, porém, é que não queiram ser livres, não se sintam capazes de enfrentar a crítica, não sejam preparados para usar a autonomia, não sejam pessoas crescidas.
Nova Alvorada do Sul, 05 de junho de 2014.
Antonio Sales

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A IGREJA, EU, VOCÊ E NÓS



Recentemente Camila Paglia, uma escritora americana, deu uma entrevista
nas páginas amarelas da Veja(*).
Ela falou sobre o isolamento das mulheres em virtude dos recursos tecnológicos disponíveis como a máquina de lavar, por exemplo. Antigamente, segundo ela, quando as mulheres iam lavar roupas em grupo havia mais interação entre elas. Conversavam, opinavam sobre a vida, sobre roupa, técnicas de lavar roupa, educação de filhos e cuidavam das crianças umas das outras. Ainda segundo ela nós amamos o isolamento, mas isso não é bom porque a constituição do sujeito fica prejudicada. Tornamo-nos inseguros, desconfiados, egocêntricos.
Lembro-me das minhas aulas sobre Fenomenologia no curso de Mestrado. No estudo sobre  a percepção Merleau-Ponty deixa claro que percebemos em  oposição, isto é, que percebemos que o céu é azul porque a grama é verde e a terra é marrom. Nos dias densamente nublados onde tudo parece cinza é difícil dirigir um carro porque os contornos do asfalto perdem a definição, a noção de distância fica prejudicada e os pedestres que atravessam a rua se tornam indistinguíveis. Dito em outras palavras: sei quem sou porque você é diferente de mim. Constituo-me na diferença.
Somente observando o que o outro tem é que consigo saber o que me falta. O outro, com suas diferenças me enriquece, me completa.
As igrejas com a sua filosofia de transformar a todos em ovelhas (submissas sem opção), com o discurso de que devemos todos ser iguais a Cristo e que deve reinar a unidade entre os crentes, roubam a nossa identidade. Pregam a nossa anulação e, consequentemente, estimulam o nosso absenteísmo e inutilidade. Tornam todos acinzentados e, dessa forma, a igreja perde a coloração das ideias, fica sem pessoas criativas e autônomas. Com isso ela perde o vigor do embate salutar que produz crescimento.
Poucos são os que conseguem romper com essa estrutura que os enclausura e arriscam a se expor. Poucos expressam os seus pensamentos porque temem ser diferentes.
Se fossemos iguais a Cristo quem seria o outro? O que mais haveria por fazer? Teríamos alcançado a plenitude espiritual e depois? O que faríamos?
Sabemos que o pronome Nós é preferível ao pronome Eu quando se trata de  viver socialmente, mas  esse Nós deve ser resultado dos Eus e dos Vocês que, voluntariamente, se unem em colaboração mantendo cada  a sua individualidade porque as diferenças se completam.
Quanto maior a diversidade maior a riqueza de ideias e maior a possibilidade da beleza aparecer na variedade de aparências.
Antonio Sales
Nova Andradina, 04 de abril de 2014.

 PAGLIA, Camile. Nós Sufocamos os Homens. Veja: edição 2363, ano 47, nº.10, 5 de março de 2014. Entrevista concedida a  Mariana Barros para as páginas amarelas.

domingo, 23 de março de 2014

PECADORES OU NÁUFRAGOS?

Como Deus nos trata?
No contexto do derramamento do Espírito Santo somos vistos, por um Deus coerente,  compassivo, que se acredita ser de amor, como pecadores ou como náufragos?
Pecadores precisam de punição e náufragos, de socorro.
Pecadores necessitam de arrependimento e confissão, náufragos de ajuda, precisam lutar por sobreviver, clamar e ansiar por socorro. Um náufrago precisa sentir-se perdido, necessitado de socorro, mas não culpado. Precisa clamar por ajuda, mas não por perdão.
Apesar de ter reservas quanto aos ensinamentos que  são transmitidos pelas igrejas não consigo ficar sem visitá-las. Há algumas razões para isso. Uma delas é que passei toda a minha juventude frequentando igreja e hoje essa frequência faz parte da “programação” da minha vida, é um hábito. Outra razão é que tenho bons amigos religiosos e gosto de vê-los em suas igrejas. Igreja para mim é um lugar de encontro com o outro e não somente para adoração. Alguns sermões me entediam pela ausência de objetivo, ausência de  conteúdo e muitos pela repetição. Gosto mais da escola bíblica porque posso opinar.
A lição bíblica de hoje trouxe-me esses questionamentos que exponho aqui. Tratou do derramamento do Espírito Santo e da condição do homem. A exposição da mesma de forma geral direcionou o assunto para o absurdo de admitir que todos na igreja são hipócritas, têm pecados escondidos, compactuam com os erros usualmente praticados na sociedade e precisam de arrependimento e confissão para recebimento do Espírito Santo.
Discordei. Disse que assim como um náufrago ( a figura do náufrago é minha, não estava na lição) não tem que se arrepender do navio ter afundado, também não somos culpados pelos pecados de Adão e não somos responsáveis por nossa carga genética e nem por todas as mazelas que existem no mundo. Não temos que nos arrepender de termos nascidos nesse contexto perverso.
Como náufragos precisamos de orientação, de apoio, de socorro.
Se alguém tem que se arrepender, nesse contexto, é a instituição que não orienta devidamente, que não socorre devidamente, que não apoia e que só condena.
Claro que os expositores ficaram confusos, mas como não sabiam dizer outra coisa além do "amém" ao que está escrito, "rodaram" em círculos e concluíram o que o autor da lição concluiu: somos um bando de maldosos, errantes por vocação, carentes de punição e sob a mira de um Deus ofendido com anosa conduta ou que procura pretextos para Se desculpar da Sua  incapacidade de gerenciar o mundo com tranquilidade.
Discordo disso. Não consigo ver a humanidade como pecadora, prefiro vê-la como náufraga. Penso que somos náufragos e que somos tratados por Deus como náufragos e não como pecadores empedernidos, perversos.
 Sei que há exceções, mas estou pensando na maioria.
O que acha o leitor? Somos (ou merecemos ser) tratados como pecadores ou como náufragos, nesse contexto?
Antonio Sales
Campo Grande, MS,  10/08/2013


sábado, 8 de fevereiro de 2014

VIDA E MORTE NA RELIGIÃO



O apóstolo Paulo (Rm 7:10,11) escreveu que “ o mandamento, que era para vida, achei eu que me era para morte. Ele confundiu. Aquilo que era para trazer vida lhe trouxe morte, aquilo que ele julgava ser vida, era morte. Porque o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, me enganou, e por ele me matou”, isto é, a sua condição, as suas perspectivas estavam em desarmonia com o plano maior, que era o plano de Deus. Ele pensava estar fazendo o correto e descobriu-se no caminho errado. Sorte dele!
Digo que foi sorte dele porque descobriu o equívoco em tempo de reorientar a trajetória, de mudar o rumo. Mandamento neste texto, segundo o meu entender, é uma referência às orientações divinas, de forma geral, e não está resumido aos dez preceitos do Decálogo. Todas as normas do bem viver, normas de relacionamentos humanos e relacionamento entre o homem e Deus, Paulo chama de mandamento.
Ele pensava que estava agindo corretamente e descobriu, em tempo, que teria que alterar o percurso.
Mas, por que há vida e morte na religião?
Li recentemente o livro “Eu sou Malala” da menina que foi baleada pelo Talibã. No seu relato ela conta sobre o agir dos talibãs. São pessoas honestas, que creem no Corão, que falam em nome de Deus, que pensam que a religião deve ser purificada, que Deus está sendo desonrado pelo modo geral de agir das pessoas.
É preciso fazer uma limpeza espiritual no povo, para que a religião seja também limpa, pensam eles. Os males do mundo (secas, tufões, violência, tsunamis) são consequências da desaprovação divina pela falta de compromisso espiritual e moral da humanidade.
Esquecem que Jesus disse que o sol e a chuva vêm igualmente sobre justos e injustos (Mt. 5:45), isto é, que Deus não está julgando o mundo pelo comportamento das pessoas. Ele não está punindo a todos pelo comportamento de alguns.
Essas pessoas, fundamentalistas, agem em nome de Deus sem a Sua autorização e produzem morte. Matam literalmente, diz Malala. Incendeiam escolas que educam meninas e queimam, com ácido, o rosto de meninas que saem de casa sem o véu.
A religião que era para trazer  vida, esperança e alegria, se transforma em medo, culpa e morte. Quando fundamentalistas se propõem apurificar a religião, a morte substitui a vida.
Quando o legalismo toma o lugar da graça, a oportunidade cede  lugar à culpa. Quando as posturas mais radicais se manifestam a graça evade e o medo, o pecado e a intriga se fazem presentes.
Quando a fuga da realidade presente se manifesta através de expectativas futuras, incertas pela ausência de datas, a apatia se torna visível.
É a morte através da religião.
É dessa forma que aquilo que devia ser vida transformou-se em morte.
Antonio Sales
Campo Grande, 08 de fevereiro de 2014