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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A QUESTÃO DA TRINDADE

Há no meio cristão um debate sobre a composição da divindade que se arrasta ao longo dos séculos.  Uns defendem o monoteísmo e outros, a trindade.
Já vi absurdos na tentativa de explicar ou defender a crença trinitariana. Já vi curiosas tentativas de justificá-la. Uma delas consiste em  usar um princìpio matemático. Dizem os que a defendem que assim como 1x1x1=1 então a trindade (que significa três pessoas em uma só divindade) faz sentido. Só não explicaram porque não usam o princípio da adição onde 1+1+1=3. Tais explicações parecem-me carente de sentido, desprovidas de qualquer significado ou necessidade.
Já vi unitarianos zombando dos trinitarianos e dizendo que eles adoram  um deus com três cabeças. Para que serve esse tipo de provocação? Alguém já viu a divindidade? Foi consultado por ela? Teve acesso aos seus mistérios, paradoxos, potenciliadades ou sistema de organização?
De qualquer forma tenho pensado ser este debate sobre a divindade um tanto inútil, do ponto de vista prático.
Ele deve ser muito interessante do ponto de vista teórico, para um estudioso da  Teologia. Os teólogos precisam especular, no sentido de conjecturar, e procurar explicações para as suas especulações. São essas especulações que dão sentido à atividade do teólogo. É isso que justifica a sua existência como estudioso de uma matéria. Um estudioso que não especula, que não vai além do que está posto, não pode ser considerado um intelectual. Portanto, nada contra as especulações sobre a divindade desde que se explicite que se trata de uma espaculação, desde que as suas conclusões não sejam postas como base para julgamento de seres humanos. Desde que não usem suas conclusões para segregar, para punir ou dividir.
Minha conclusão é que o leigo que não tiver interesse nesses debates não precisa perder tempo com eles. Penso que a salvação de alguém não está condicionada à compreensão desse assunto.Vejamos algumas razões:
Em primeiro lugar porque Deus não condicionou a salvação a essa compreensão. Encontramos evidências disso na história sagrada.
Quando Deus resolveu constituir uma nação teocrática foi buscar um homem, Abraão, criado no politeísmo (Js 24:2) e depois um povo (os escravos israelitas no Egito) constituído em um ambiente também politeísta. Quando o povo chegou no deserto do Monte Sinai Ele procurou mostrar-lhe que não precisaria mais de  muitos deuses; que um Deus seria suficiente. Para isso fez chover fogo, mandou maná, produziu relâmpagos e trovões (Êx 19: 18,19). Sua intenção era  mostrar ao povo que o politeísmo era uma redundância, que não precisariam de um deus para cada  fenômeno natural (chuva, seca, fertilidade, trovão, etc.), que bastaria um Deus competente, isto é, com qualidade moral e ética, com força, inteligência, criatividade e controle suficientes para dominar  a natureza, orientar os relacionamentos humanos e criar instituições sociais.
Bastaria um Deus. Era o monoteísmo sendo implantado, a apresentação do princípio de que basta uma instituição divina  organizada. Um Deus unido  é superior a múltiplos deuses  que vivem em constante disputa entre si. Concluo, com base nesse raciocínio, que a salvação não está condicionada à compreensão prévia dos mistérios da divindade.
Em segundo lugar creio que tal compreensão é desnecessária porque a divindade não nos consulta sobre as decisões a serem tomadas. Ela arbitrariamente decidiu (ou decide) em algum tempo fazer uma (re)distribuição de tarefas. Para tal constituiu-se de três pessoas, segundo os trinitarianos.
Por que três e não quatro, dez ou quarenta? Precisamente não sei, pois, como disse, não fui consultado. Por que fiz referência a três pessoas? Porque pela leitura da Bíblia (Jd 20,21; 2Co 13:13) encontro três nomes relacionados ao assunto e não creio que algum deles seja usado como simples instrumento pelos outros.  São três pessaos ou uma pessoa com três nomes, cada nome indicando uma função (as três mais importantes no plano da salvação)? Também não sei.
Posso provar que são somente três ou exatamente três? Não estou preocupado com isso. Nesse caso, como fica, para mim, essa questão, isto é, como entendo essa questão da divindade ou  a relação entre os seus membros?
Tenho encontrado soluções próprias para os meus problemas intelectuais. Crio minhas próprias explicações quando as outras não me satisfazem. Aprendi que nessas áreas de conhecimento tudo depende do referencial que se adota e adoto meus prórpios referênciais. Deixo o leitor livre para concordar ou discordar de mim. Faço minhas próprias definições porque até agora não encontrei nenhuma outra que me satisfizesse.
Tenho pensado na questão em termos de qualidade e quantidade. Em termos de qualidade a divindade é unitária, autossuficiente, capaz de resolver sozinha todos os problemas relativos à redenção humana. Qualitativamente ela é única, a única instituição do gênero. Ela basta-se a si mesma, basta para a teologia, basta para o projeto  de redimir e restaurar.
Quantitativamente ela se constituiu como quis e distribuiu as tarefas como Lhe aprouve. Portanto, a quantidade de elementos que a compõem é, no meu entender, irrelevante em termos práticos. Pode ser um bom assunto para debates, mas não altera  a minha condição. Não me santifica mais, não me engrandece mais se acreditar que são três pessaos ou apenas uma. Não tenho visto diferença nos relacionamentos humanos resultante de se acreditar na trindade (três pessaos divinas), na dualidade (apenas duas pessoas)  ou na unidade (apenas uma). O que me parece fazer diferença é permitir que algum (ou todos) membro(s) da divindade atue(m) na pessoa ensiando-a a respeitar a compreensão do outro.
Talvez possa ser interessante discutir a função de cada membro da trindade ou o significado de cada nome, mas não é imprescindível. Vejo nesse estudo das funções um bom campo de especulação teológica que, no entanto, não interfere na salvação e não justifica o debate segregacionista que decorre dessa especulação.
Do ponto de vista intelectual acho muito interessantes os estudos existentes nessa área. Gosto de ver as fronteiras do conhecimento sendo expandidas, mas não vejo porque essa expansão deva segregar. É bom conhecer, especular, debater respeitosamente o assunto desde que não se use isso para amedrontar, desqualificar ou julgar o ser humano.
Dourados,MS, 07de janeiro de 2012.
Antonio Sales                        profesales@hotmail.com

sábado, 7 de janeiro de 2012

POR QUE EXISTEM AS RELIGIÕES?


Evidentemente que um teólogo daria uma resposta a essa pergunta muito diferente da que vou dar. Já convivi com alguns e já li o que outros escreveram sobre isso. Vou pegar um caminho diferente. Minha resposta não é teológica e não tem a pretensão de ser o ponto final de um debate sobre o assunto. Quem quiser pode sentir-se livre para discordar de mim. Este é um espaço para debate, um debate respeitoso, sincero, mas um debate.
Muitas instituições religiosas perderam a razão da existência porque perderam a finalidade original, a finalidade para a qual foram criadas. Hoje elas ainda atuam, mas  com outras finalidades, embora mantenham o nome original e conservem no seu estatuto a finalidade original como objetivo ou como meta principal.
Alguns pregadores orgulham-se de pertencer a uma igreja que mantém a “sã doutrina”, a originalidade, sem se darem conta de que tal coisa não existe mais.
Gosto de trabalhar com exemplos e para não expor uma instituição específica vou “criar” uma denominação religiosa hipotética. Falarei da instituição Z.
O(s) pioneiro(s) ou o(s) fundador(es) de Z acreditava(m), por exemplo, que Jesus estava retardando o Seu retorno à terra porque não havia um povo preparado para recepcioná-lo e empenhado em anunciar a Sua volta. A instituição Z foi então fundada com essa dupla finalidade: proclamar a volta do Senhor Jesus e preparar um povo para a grande recepção.
O entusiasmo com que pregava(m) conquistou muitos membros e para bem atendê-los contratou (foram contratados) pastores e criou-se uma estrutura organizacional.
No início todos os pastores centravam a sua mensagem na esperança e no preparo moral e espiritual dos membros. Tendo em vista, porém, que as décadas foram se passando sem que ocorresse o esperado retorno de Cristo, e tendo observado que a elevação moral do povo nunca atingia o patamar esperado, os pregadores começaram mudar o foco da pregação. Já não falavam mais de esperança, já não mais estabeleciam patamares de excelência moral, já não mais falavam em renúncias, já não mais insistiam na proclamação do esperado retorno.
Pode-se dizer que nesse ponto a igreja perdeu a razão original da sua existência e, diante disso, ela devia parar as suas atividades. No entanto, alguns problemas criados nesse período requeriam a sua continuidade. Por exemplo: o que fazer com os prédios de sua propriedade? O que fazer com os pastores que haviam dedicado a sua vida à proclamação daquela mensagem? Como anunciar ao público o fechamento das suas portas e a anulação das suas doutrinas? O que fazer com os membros que haviam sido conquistados?
Nesse impasse, resolveu-se que igreja funcionaria que até que o último pastor aposentasse e o último membro viesse a óbito ou desistisse por si mesmo. Acontece que, para manter o funcionamento enquanto aguardava esse desfecho final, foram contratados outros pastores jovens e para custeá-los foram conquistados outros membros, e dessa forma, percebeu-se que nunca haveria um último pastor e nunca haveria um último membro. Logo, a estrutura organizacional precisaria continuar funcionando e para isso novos pastores contratados e novos membros conquistados.
É dessa forma que a igreja Z ainda existe e continua as suas atividades, mas com objetivos diversos dos objetivos originais. Ela não mais existe para apressar um evento, existe para manter uma estrutura. Não está mais em atividade para preparar alguém para uma recepção especial ao “Rei dos reis”, mas para não admitir o ridículo de ter enganado uma geração. Está em atividade e conquista membros para manter os seus pastores e, enquanto isso, novos pastores vão sendo agregados e o fim das suas atividades, sendo adiado.
Se você, leitor, deseja saber se a sua igreja ainda tem razão de existir fique atento aos discursos. Verifique se eles estão alinhados com os objetivos originais. Alguns indícios de desalinhamento:
A ênfase na arrecadação de fundos, embora sob aura de fidelidade a Deus, de compromisso com a causa, não lhe parece um forte indício de que a igreja busca desesperadamente manter a estrutura?
A dificuldade em conviver com alguém que pensa diferente, que tenta inovar, indica medo de desestabilização estrutural, não sugere medo de que se descubra a fragilidade dos argumentos e objetivos?
Frouxidão nas exigências em relação a comportamento e procedimento ético não sugere descrença com relação aos dogmas?
Às vezes até se fala sobre o assunto, mas aborda-os de forma indireta, em discursos indiretos, inespecíficos. Não tratar de forma específica os temas que angustiam a membresia não sugere nada? Será que essa abordagem não é só para manter a aparência?
A busca por culpar sempre os membros pelo não envolvimento não sugere uma forma de esconder o verdadeiro problema que é a perda e objetivos?
O ataque frequente ao “mundo” como se tudo que não é da igreja não seja bom, embora desfrute-se livremente dos benefícios desse “mundo” não sugere desvio de foco? A igreja não é para mostrar o caminho ao mundo? Como se mostra o caminho: dizendo o que não pode ser feito ou  dizendo o que deve ser feito?
Quando há uma supervalorização do trabalho do pastor e pouca delegação de competência não se está protegendo alguém? A preocupação com metas a serem cumpridas sempre visando o aumento do número de membros é indicativo de que? Estratégias de engano tais como oferecer serviços temporários para conquistar novos membros não lhe parece um desvio de rumo?
A lista vai longe, mas o crente atento perceberá nas entrelinhas dos discursos, indícios de preocupação em manter as estruturas e não mais de ajudar o próximo a encontrar uma diminuição nos seus problemas relacionais.
Campo Grande, 20 de dezembro de 2011.
Antonio Sales    profesales@hotmail.com

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

POR QUE ALGUNS SE AFASTAM DA IGREJA?


Primeiramente, entendo que afastar-se de uma igreja não implica afastar-se de Cristo ou negar o cristianismo. Muitos religiosos, principalmente os que entendem que a sua igreja possui a verdade absoluta, interpretam que afastar daquela igreja é estar perdido. É assim que devemos ver as pessoas: salvas ou perdidas conforme a igreja que frequentam?
O objetivo deste texto não é analisar comportamentos ou dogmas, mas um discurso e a ideia surgiu após assistir um vídeo denominacional. O vídeo foi elaborado com a finalidade de recordar da história da denominação e a cena  inclui um conhecido teólogo, um entrevistador e uma vista a um cemitério. O teólogo, enquanto ambos os personagens visitavam as tumbas de alguns pioneiros, era entrevistado e contava um pouco da vida de cada um deles.
Três dos túmulos visitados eram de pessoas que exerceram forte influência no inicio daquela igreja, mas que depois se afastaram dela. Nesse ponto o entrevistador perguntou ao teólogo sobre as possíveis causas de uma pessoa, que se empenhou tanto, de repente tomar caminho adverso e se afastar dos princípios denominacionais.
A resposta foi surpreendentemente simples e por isso deixou um desejo de saber mais. Deixou a expectativa de que é possível explorar mais a questão levantada.
A resposta apresentada foi: há quatros possíveis causas, a saber:
1.Conhecimento superficial da Bíblia.
2.Conhecimento relativamente profundo, mas não santificado, isto é, um conhecimento intelectual que não atingiu o coração.
3. Descontentamento com o tratamento recebido de algum líder e a pessoa generaliza.
4. Frustrações da vida. A pessoa queria ocupar algum cargo importante e não foi alçada ao cargo almejado então abandonou a instituição.
Analisemos cada uma delas para justificar a nossa afirmação de que  a questão do entrevistador poderia ser melhor explorada.
Resposta1.Conhecimento superficial da Bíblia.
Nesse ponto eu entendo que o pressuposto do teólogo seja que a sua igreja contém a verdade absoluta e quem conhece a Bíblia naturalmente concorda com ela, ou não tem alternativa. Portanto, se afasta quem não conhece o suficiente.
Não poderia ter sido o caso de ocorrer exatamente o oposto?
Resposta 2. Conhecimento relativamente profundo, mas não santificado, isto é, um conhecimento intelectual que não atingiu o coração.
Entendi que isso poderia significar que tais pessoas nunca foram convertidas. É como se as pessoas fossem imutáveis e tendo decidido uma vez nunca mais voltariam atrás. É como se não fosse possível apaixonar outra vez, ter uma nova afeição. É como se dissesse que uma vez salvo então se está salvo para sempre.
Não poderia ter ocorrido de ser exatamente o coração o fator motivador desse afastamento? Quando o coração se frustra está garantido que o cérebro controla?
Resposta 3.Descontentamento com o tratamento recebido de algum líder e a pessoa generaliza.
Essas pessoas eram tão simples ao ponto de não distinguir a parte do todo? Há pessoas que realmente agem assim, mas dificilmente estão em liderança ou encabeçando movimentos.
Resposta 4. Frustrações da vida. A pessoa queria ocupar algum cargo importante e como não foi alçada a esse cargo abandonou a instituição.
Essa pode realmente ser uma causa, mas não explica tudo. Não poderia ter sido o fato de a pessoa não querer ser líder, desejar contribuir e quem está liderando rechaçá-la com medo de perder o espaço? Nesse caso a pessoa se afasta por falta de opção.
Não conheci pessoalmente os personagens citados no vídeo.  Não sei quais as verdadeiras causa do afastamento de cada um. Estou analisando um discurso e não comportamentos. Por ser o discurso de um intelectual penso que posso opinar, pois, todo intelectual sabe que o mundo acadêmico é de confrontos, é um constante passar a limpo. De igual modo não estou questionando os dogmas de qualquer igreja, quero apenas dizer que não se podem simplificar questões tão profundas. O excesso de simplicidade pode não ajudar.
Nova Andradina, domingo, 06 de novembro de 2011.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

“PODE CAIR O MUNDO”?


Não gosto muito de escrever sobre música. Não quero dar a impressão de que entrei na onda de supervalorizar o papel dela  na adoração. Vejo-a apenas como um fator  constituinte do culto. Minha preocupação é com a educação, isto é, com os valores que são transmitidos pela igreja, pela música, pelo sermão e por todos os componentes da vida religiosa em geral.
No texto intitulado “O cristão: forasteiro ou residente” questionei a contribuição educativa de um hino clássico e hoje quero questionar a contribuição de uma música contemporânea.
O refrão ou a parte mais repetida da música diz: “Pode cair o mundo estou em paz”. Ela foi composta por dois nomes conhecidos e respeitados pela competência técnica e teológica e também pelo bom gosto na composição de suas músicas.  Por essas razões suas músicas fazem muito sucesso entre os jovens.
Lendo a letra dessa música percebe-se que os autores tinham a intenção de reforçar a necessidade de se confiar em Deus. A minha preocupação está com a escolha da parte onde recai a maior ênfase: “Pode cair o mundo estou em paz”.
Como se sabe essa é a parte de uma música que mais se repete e, normalmente, é a que fica gravada na memória dos ouvintes; daqueles que “cantam no banheiro”. Normalmente esse “cantor” grava somente essa parte que acaba sendo  repetida dezenas de vezes e a frase fica fora do contexto. É com base nesse fator que teço algumas considerações à referida música e me atrevo em dizer que ela é, pedagogicamente, imprópria para ser usada em reuniões de jovens ou no culto.
Uso raciocinar tomando por base fatos concretos. Quando estes não existem crio um, hipoteticamente. Neste caso imaginei um dentista dormindo tranquilamente quando, lá pelas tantas da madrugada, o telefone toca. Ao atendê-lo ouve do outro lado da linha  a minha voz dizendo: “ Doutor, meu filho acordou com uma lancinante dor de dente. Está com aproximadamente uma hora que vimos tentando, com os nossos próprios recursos, diminuir a intensidade da mesma para que se possa esperar o amanhecer do dia. Nossos recursos se esgotaram e ele está ficando desatinado de dor. Se eu levá-lo aí o senhor o socorrerá?”
Imagino agora o dentista respondendo: “deixe-o gritar de dor estou em paz”.  Em outras palavras: como dentista eu e minha família estamos livres desse incômodo e vou dormir em paz.
Temo que seja esta a mensagem que ficará gravada na memória dos ouvintes desses “cantores” de segunda ordem. Temo que esteja sendo transmitido um valor  não cristão: a acomodação diante da desgraça alheia. Que esteja sendo incentivado o cruzar dos barcos e sorrir diante da tão propalada miséria do mundo.
Alguém poderá questionar dizendo que como cristãos devemos mesmo ter paz em meio à “trovoada”. Tenho dúvidas. Será que devo ficar em paz se o meu vizinho está sendo atingido por algum “raio”?
Jesus chorou sobre Jerusalém (Mt 23:37) porque os seus habitantes rejeitaram todas as oportunidades que lhe foram oferecidas. O Mestre não ficou em paz enquanto a cidade corria risco de perdição. Deus, quando viu a humanidade mal orientada pelo judaísmo, mesmo sabendo que a Sua reputação não seria abalada perante o universo, não ficou “em paz”. Não cruzou os braços. O apóstolo Paulo desejou, ansiosamente, levar os judeus aos pés de Cristo. Não conseguiu e foi pregar aos gentios, mas ele não ficou em paz com a rejeição dos seus compatriotas (Rm 9:1-3).
Um cristão, portanto, não pode ficar em paz enquanto o “mundo cai”. Ainda que ele esteja seguro de que a queda do mundo não o afetará (e creio que seja a mensagem que a música quer transmitir). Penso que ele não poderá dormir em paz enquanto os seus irmãos correm perigo. Quando escrevi sobre isso no texto já citado penso que deixei claro que e a minha preocupação é que incentivemos o cultivo de uma atitude de comodismo diante das aflições dos outros.
Preocupa-me pensar na religião com uma fuga dos problemas sociais porque, se isso acontecer, a igreja perderá a sua razão de existir. Não será justo ela arrecadar dinheiro, que poderia ser gasto para investir no preparo de pessoas, e usar em benefício próprio. Não seria correto recrutar jovens e depois não devolvê-los preparados para ajudar os que correm perigo. A religião não pode ser uma fuga.
Sei que alguns pressupõem que a igreja tem somente que pregar o evangelho, mas um evangelho que não me torna humano não é útil. Ser humano, na minha perspectiva, é olhar pela “janela”,  ver o que se passa lá fora, recolher-se  por alguns momentos enquanto se traça um plano de ação e então abrir a porta e partir para a luta em favor do outro. É isso que eu chamo de “serviço” só oferece serviço quem não está “em paz”.
Voltando à música em pauta. Confesso que acho-a bonita e gosto de ouvir a repetição mas, como educador, sinto-me no dever de ir além de um simples expectador. Devo preocupar-me com as questões pedagógicas. Estou preocupado com os valores que ela transmite.
Campo Grande, 20 de outubro de 2011.
Antonio Sales           profesales@hotmail.com

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

DEUS PRECISA DE NÓS?


Quando essa pergunta é feita a resposta imediata que se tem é: não.
Em alguns carros encontramos adesivos dizendo: Deus sem você é tudo e você sem Deus é nada. Esses dizerem, ou melhor, essa crença  nos reduze à insignificância absoluta.
Quem nunca pensou em Deus não tem valor?Minha vida não vale nada? Se eu for ateu então o  meu trabalho e as minhas contribuições sociais não valem nada? O que será que querem dizer com essa frase? É uma ameaça ou uma advertência? É um convite ou  uma intimidação?
Fico com medo quando vejo um adesivo desses em um carro. E se o motorista suspeitar que sou ateu ele me atropelará como se atropela um cachorro louco? E se ele suspeitar que estou me prostituindo,  me executará como se executa um cão com leishmaniose?
Em uma reunião religiosa em que o tema veio à tona e todos diziam que Deus não precisa de nós propus que pensassem em uma família  e  perguntei: em uma família  quem precisa de quem? Os pais precisam dos filhos ou os filhos precisam dos pais?
Resposta imediata: ambos.
A partir daí argumentei que o exposto até ali carecia de sentido e que vinha sendo construído e o tema foi abandonado. O silêncio que se seguiu me deixou perplexo. Entenderam e concordaram? Apenas ignoraram o que eu disse?
Mesmo supondo que tenham concordado ainda penso que a questão não ficou entendida. Penso que na resposta, e quando se calaram, podem ter levado em conta apenas a questões relacionais.  Talvez tenham pensado no fato de que em certa época os pais são o amparo dos  filhos em outra acontece o inverso. Minha questão era outra.
Minha questão é ontológica. Ter a ver com a existência e não simplesmente com a relação. A pergunta era: Deus pode ser Deus sem o ser humano?
Haverá pai sem ter alguém para chamar de filho? Haverá filhos sem ter  pai (um ancestral)?
Haverá broto de uma árvore sem ter resquícios da árvore?
Haverá criatura sem criador? E criador sem criatura? Existiria Deus se nós não existíssemos? Ele seria Deus de quem?
Alguém poderá dizer que o universo tem outros habitantes, logo somos desnecessários. Não entro na questão da existência ou não de outros seres inteligentes, mas não concordo com a conclusão. Minha pergunta é: por que Ele nos criou se não precisava de nós? Estava apenas procurando o que fazer? Fugindo do tédio?
Admitindo que tenha outros planetas habitados, portanto, outras criaturas (essa discussão não está em pauta) Ele seria Deus lá e não aqui. Para ser Deus aqui teríamos que existir.
Pergunta: Existe Deus?
Resposta: sim.
Justificativa: eu existo
Abre parêntese. Suponho que o leitor tenha entendido que não estou dizendo que sou Deus, mas que sou a prova da Sua existência. Algo equivalente a: a minha existência prova que meus pais existiram. Ninguém, em são juízo, me perguntará se meus tataravôs existiram. Fecha parêntese.
O que estou dizendo é que sem nós Deus não existiria como Criador, como Salvador, como Protetor ou outros adjetivos que Lhe atribuímos.
Eu não existo como benfeitor para quem nunca exerci influência benéfica na sua vida. Deus não existe onde Ele nunca atuou. Sendo assim, Deus precisa de nós para existir com tal.
Um homem sem filhos existe como homem, mas não como pai.
Uma mulher solteira existe como mulher, mas não como esposa.
Deus como Deus existe porque nós existimos.
E levando em conta o fator relacional Deus precisa de nós? A resposta está no fato Dele ter nos criado. A menos que admitamos que somos obra do acaso  ou que Ele  nos criou como uma brincadeira, como uma criança brinca fazendo bolinhas de barro e depois atira-as ao léu, somos necessários a Ele.
Meus filhos são-me necessários mesmo quando não estou precisando do apoio deles. Sou pai porque eles são meus filhos e a não existência deles me esvaziaria como pai. A ausência deles seria um indicativo de infertilidade, haveria carência de  sentido na paternidade.
Não sei como se sente uma mulher quando envelhece sem ter filhos, mas sei que esse sentimento tem um nome: “síndrome do útero vazio”. Qual o nome  que daríamos ao sentimento equivalente no homem? “Síndrome da semente que não germinou”?
Quem não faz por acaso, ou para passar tempo, faz porque precisa. Como acredito que não sou obra do acaso creio que eu preciso de Deus e Deus precisa de mim. Talvez necessitemos um do outro em proporções diferentes mas, com certeza,  somo necessários um ao outro.
Campo Grande, 15 de outubro de 2011.
Antonio Sales              profesales@hotmail.com