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domingo, 16 de outubro de 2011

A MÚSICA NO CULTO


A música não é o único fator do culto. Muitos outros fatores contribuem para a sua beleza e riqueza ou para sua pobreza e feiura.
No entanto, quase não se vê ninguém debatendo a contribuição do sermão, da oração pública, da simpatia dos irmãos, da cortesia e da atenção para um bom culto. No meio onde vivo o debate gira em torno da música. Aliás,  não é nem um debate porque quase sempre é um discurso unilateral. É um falando e os outros ouvindo calados. Muitos ouvem calados porque não concordam com a forma como o “debate” é conduzido mas sabem que se falarem em nada contribuirão porque o discurso está pronto e o “debate” é só de nome.
O curioso é que querem nos convencer de que a música é o mais importante fator do culto. Qual a razão? A explicação é simples, simplista e absurda. Primeiro dizem que é porque é a arte preferida de Satanás. Depois dizem que ele foi regente do coro celestial e, portanto, um perito em música. O que tem isso a ver  com o que estou dizendo?
Ora, se ele é tão competente quanto se diz então ele deve saber capinar, cuidar de animais, Matemática, Física, Medicina e outras tantas coisas mais. Deve falar a verdade de vez em quando, ser bom esportista e dominar a música clássica também. E daí? Não vou fazer  nada porque, supostamente, é de conhecimento dele?
Essas explicações deixam-me atordoado. Se é a arte preferida de Satanás deveria fazer parte da adoração? O fato de ele ser perito em música tem algo a ver com aquilo que faço ou canto? Estão supondo que ele é a minha inspiração? Se é ele que também inspira a inveja, a intriga, o fuxico e a desordem, então tudo o que se faz em algumas igrejas é inspiração dele?  O que mais se faz em algumas igrejas é cantar e intrigar.
Ninguém se preocupa com a pobreza dos sermões, com a discrepância de uns e o óbvio inútil de outros.
Quando se vai ao médico com uma fratura exposta, gritando de dor, e o profissional diz que está com dor porque está com uma fratura exposta ele falou o óbvio inútil. Primeiro porque o paciente já sabe o diagnóstico e em segundo lugar porque ele espera uma proposta de solução, uma palavra de esperança.
Quando um pregador afirma que a violência que há no mundo e a falta de Cristo no coração das pessoas ele falou o óbvio inútil. Quando ele diz que a sua igreja está apática porque falta o amor, falou o óbvio inútil. Quando afirma que se deve deixar o pecado, fala o óbvio inútil. Quando diz para tirar  a inveja da bagagem fala o óbvio inútil. Quando afirma que o mundo invadiu a igreja falou o óbvio inútil. São coisas que todos sabem, só não estão conseguindo fazer. Todo mundo sabe disso, pois se estamos no mundo, convivemos no mundo, aprendemos no mundo, usufruímos das benesses do mundo, como podemos deixar o mundo na hora de ir para a igreja? Será que eles imaginam que o mundo é como um casaco que pode ser deixado em casa no verão?   
O mundo é como uma roupa de uso contínuo, com a qual se está vestido: se estou nela então ela tem que estar em mim. Não se deixa o mundo assim quando se quer tão pouco se tira a inveja da bagagem com um passe de mágica.
Por que não nos ensinam como administrar o conflito entre os interesses do mundo e os interesses da igreja?
Ninguém reclama disso? Ninguém vai exigir melhora nos sermões?
Lembro-me de uma ilustração que li algures. Dizia que um jovem teologando de uma igreja congregacional se despontava como excelente orador e por isso no dia da formatura foi convidado para pastorear uma igreja grande e abastada. Foi contratado com um invejável salário.
Antes de chegar ele anunciou que iria desbancar diversos deuses cultuados na igreja. Ficaram na expectativa. No primeiro domingo ele pregou sobre o “deus tabaco”. Falou sobre os seus malefícios e sobre a incoerência de um cristão cultivar ou vender o produto e anunciou que no próximo domingo atacaria o “ deus álcool”. À saída ficou na porta para cumprimentar os membros que foram saindo em silêncio. Por último um diácono o procurou e disse-lhe: o pastor sabia que nesta igreja vários dos membros mais ricos cultivam e vendem tabaco?
Ele não se intimidou e no próximo domingo, com o mesmo entusiasmo e agressividade desbancou o “deus bebidas alcoólicas”. À saída o mesmo ritual e a mesma advertência do diácono: muitos dos que pagavam o alto salário do pastor eram donos de destilarias e vendiam no varejo e no atacado a maldita bebida. Mas ele não se intimidou e disse que manteria o título do sermão do próximo domingo: “o deus pesca predatória”.
Na próxima sexta-feira, à tardinha, o diácono o procurou e avisou-lhe que a comissão da igreja, composta em sua maioria por ofendidos em seus dois últimos sermões e que seriam ofendidos pelo próximo sermão, estaria se reunindo naquela noite para decidir se ele seria ainda pastor daquela igreja. Estava em jogo, inclusive, se ele pregaria ou não o sermão de domingo. O jovem se deu conta que precisava fazer alguma coisa para se manter no cargo e perguntou ao diácono onde eles pescavam e foi informado de que era nos rios da região. Teve uma idéia: pediu que se ele não pudesse evitar a sua demissão que, pelo menos, insistisse para que o deixassem pregar naquele domingo.
O diácono teve êxito e naquele domingo ele foi fazer o que seria seu “último” sermão. Pregou com entusiasmo e com palavras agressivas contra a “pesca predatória em alto mar”, em águas intercontinentais. Conseguiu salvar o seu ministério.
É isso que ouço hoje. Ou falam sobre o óbvio inútil ou sobre “pesca predatória em águas intercontinentais”. Nada serve para nada ou muito pouco se aproveita.
As famílias em desespero ficam sem uma palavra de ânimo, os jovens ficam sem orientação, os pais ficam sem saber como educar os filhos na perspectiva daquela comunidade, os pecadores ficam sem saber como superar a crise existencial decorrente, os traídos ficam sem saber como lidar com o perdão, os desanimados saem sem ouvir uma palavra de conforto,  os desprezados saem sem receber um sorriso acolhedor, os desempregado saem sem receber orientação sobre como proceder numa entrevista, os deprimidos saem sem ouvir que a ciência moderna tem alívio para a sua dor,  o invejoso sai sem saber porque é dominado pela inveja, o arrogante sai sem saber o mal que causa e assim por diante.
Não daria para ensinar sobre tolerância e respeito? Não daria para ocupar o tempo ensinando com superar o legalismo e se apropriar da graça?  Não daria para contextualizar o texto bíblico falando sobre a condição social do povo, suas crenças, na época em que foi escrito? Não daria para recontextualizar  o texto dizendo o que serve e que não serve para hoje?
Não seria possível observar as necessidades da membresia e tratar desses assuntos sem afetar as pessoas,  isto é, atacar o problema sem identificar a pessoa?
Não está na hora de mudar? Por que se preocupar tanto com a música se é ela que ainda dá um tom de graça ao culto?  Não será por isso que nas igrejas se canta mais do que se prega?  Cantar instrui pouco, mas alivia o fardo. Os sermões não instruem nada e ainda sobrecarregam a vida com inutilidades  e sentimento de culpa .
Quero concluir dizendo: parabéns aos músicos  que inovam e criam. Pêsames aos pregadores que copiam e aos “debatedores” unilaterais.
Campo Grande, 14 de outubro de 2011
Antonio Sales                              profesales@hotmail.com

domingo, 25 de setembro de 2011

O CRISTÃO: FORASTEIRO OU RESIDENTE?


Na hinódia cristã há alguns hinos clássicos que merecem uma análise especial. Parece que o autor da letra passava por uma experiência ímpar em sua vida e conseguiu verbalizá-la no poema. É possível sentir a angústia que lhe oprimia a alma e o seu desejo de “gritar” por socorro.
A questão que fica é se é uma letra apropriada para ser usada como canto congregacional, indistintamente. Qual a mensagem que ele transmite ao ouvinte? Que lição ensina a quem não está afeito a reflexões sobre a vida cristã, isto é, a quem pauta a sua vida e até mesmo a sua cultura por frases isoladas?
Alguém poderia perguntar: mas, e quem são os que constituem a sua “sabedoria”por frases isoladas?
Qualquer pessoa medianamente culta sabe do que estou falando. Sabe que não são poucos os pregadores que fundamentam as suas doutrinas em textos isolados do contexto e nem se dão ao trabalho de recontextualizá-los. Nem os colocam no contetxo original e nem criam outro contexto para eles. Simplesmente citam-nos e pronto. Há muitos que fundamentam até os seus julgamentos sobre comportamentos pessoais com base em fatos isolados. Inúmeras pessoas, até supostos intelectuais, fazem compilação pura e simples, anexando textos, originalmente isolados, um ao outro sem qualquer conexão que explique porque está sendo feita aquela junção.
Eu já fiz isso por muito tempo e conheço centenas que norteiam a vida por frases isoladas, elaboram sermões com textos descontextualizados, julgam tendo como critério fatos ou frases isoladas. Muitos dos que conheço, e que fazem isso,  julgam-se intelectuais e são considerados como tais pelos seu pares. Não é uma crítica, é uma constatação. Já fiz coro com eles.
Esse é o perigo de se usar qualquer canto congregacional sem uma análise da mensagem que se quer transmitir e sem um esclarecimento ao público ouvinte.
Um hino que conheço e que pertence a essa categoria tem como refrão: “Sou peregrino e forasteiro, uma noite aqui e nada mais”. Esse hino que foi escrito por MBS Dana uma senhora que viveu no século XIX (1810-1883) tem uma melodia muito bonita. É um melodia tradicional italiana que mantém a alma do adorador em suspense. A letra fala de esperança também, porém uma esperança por contraste. Isto é, fala do andar “errante” no “escuro” do munto e da luz que existe no céu.
Que andar errante é esse? Enveredou ela pelo mundo das drogas e da prostituição? Viveu no escuro da ilegalidade e agora se volta para luz do evangelho cheia de esperança? Foi uma esposa maltratada pelo esposo ou uma jovem explorada pelo pai que ansiava por liberdade? Sua luz seria um milagre que a arrebatasse da vida que levava? Era portatora de uma doença e desejava a cura definitiva? Qual era a sua angústia, o escuro da sua vida? Qual era a luz que ela ansiava?
A frase do refrão é preocupante quando pronunciada isoladamente.  O que faz um forasteiro? O que deixa ele como herança? Se esse forasteiro for, além disso,  um peregrino qual a sua lição de vida?
Embora forasteiro e peregrino possam ser tomados como ternos sinônimos estou admitindo uma certa diferença sutil entre eles. O forasteiro, na minha concepção,  é qualquer passante. Um peregrino é alguém que deixou as suas origens e executa um trajeto bem definido, um caminhante com um motivo especial; alguém que caminha para algum lugar.  Segundo a Wikipédia “A peregrinação tem, assim, um sentido e um valor acrescentado que é necessário descobrir a cada pessoa que a executa”.
Mas o que faz um peregrino em benefício do lugar por onde passa? Nada.
Ele não semeia, não cultiva uma planta, não cava uma cisterna, não constrói uma casa, não apóia  uma escola, não abriga uma criança, não dá esperança uma jovem e não zela pelo local. Seu olhar está no “além”. Passará por aqui uma única vez, pedirá ajuda, pernoitará ao relento ou em um abrigo improvisado e seguirá em frente sem deixar herança cultural, emocional ou material. Ele não cria vínculos por onde passa.
Se sou apenas um peregrino aqui nesta terra, se passarei apenas uma “noite”(minha vida é uma noite?) o que me interessa fazer por este lugar? Estabelecerei uma relação ecológica? Estabelecerei uma relação afetiva com o contexto social onde vivo?  Serei sempre um “estranho no ninho”? Terei projetos sociais? Para que tudo isso se passarei apenas um “noite”? Um “noite” cheia de medo, “desabrigado”? Todos deverão ser sempre estranhos para mim?
É essa a vida que quero para mim? Deve ser essa a minha pregação para os fiéis? Será que de fato devo ser um peregrino?
Tenho ouvido de cidades onde por muito tempo havia vandalismo contra pontos de ônibus, telefones públicos, etc. Morei em uma delas e vivenciei isso por algum tempo. Pela experiência que tive e pelo que me contaram sobre outras cidades a minha conjetura (não sou sociólogo) é que essas cidades eram pontos de passagem, isto é, as pessoas saíam de suas terras em busca de algo melhor em outro lugar e essas cidades ficavam no “caminho”. Por acaso, ou por falta de recursos, estabeleciam residência nela, mas pensavam em um dia prosseguir. Seus filhos não era filhos dessa cidade, logo, não tinham compromisso com ela. Em alguns casos essas cidades eram apenas o lugar de buscar recursos para a família que ficara para trás e, por alguma razão (muitas vezes não planejada), estabeleciam  residência ali e constituíam família. Também nesses casos, os seus filhos não eram filhos daquela cidade.O passante não cuida, não tem projetos, não investe no local.
Alguns cristãos tornam-se peregrinos até na igreja. Não investem nela, não apóiam novos projetos e não cultivam amizades.
E eu? Sou peregrino e forasteiro ou sou um residente responsável que constrói uma ponte para o futuro?
Nova Andradina, 24/09/2011.
Antonio Sales  profesales@hotmail.com

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Religião para a Adoração ou para a Vida?

Algumas religiões estão centradas na adoração, a saber, todo discurso, todo preparativo, toda instrução, enfim, tudo está voltado para a adoração. Cuidam de como se portar na “Casa de Deus”, como adorar, qual o traje apropriado e qual a conversa permitida na ”presença de Deus”. Esses são temas frequentemente abordados nos sermões e outras reuniões ou sessões de estudo. Esse é o enfoque dessa religião.
As questões contemporâneas, os relacionamentos familiares tumultuados, a profissionalização do jovem, a superação dos preconceitos, a saúde mental, as questões éticas e a decência (não a moda) dificilmente são temas abordados nos sermões e não entram em pauta nas discussões. Não é uma religião da vida e para a vida, porque não se preocupa com as coisas da vida.  
Meu amigo César Augusto disse que é uma religião que não sai dos joelhos. Ela não sobe para o coração e nem para o cérebro. Não impregna a vida, não estimula a ação, não promove a autoestima e não traz realizações pessoais. Tudo se “resolve” com o joelho.
Com esse perfil essa religião deixa de interferir na vida das pessoas, falha em transformar comportamentos, estreita a mente, produz hipocrisia, leva à indiferença para com as necessidades alheias e desconsideração para com as diferenças individuais.
A linguagem desenvolvida por essa religião é o espiritualês. Tudo na vida tem motivação espiritual (anjos do bem ou anjos do mal conduzem a vida), todos os problemas se “resolvem” pela oração (especialmente se o problema é do outro), Deus sempre “mostra” o caminho (até os caminhos errados que sempre tomamos?) e sempre responde as orações.
O problema, na fala dos adeptos dessa religião, é que por vezes (lê-se: raramente), Ele diz sim, por vezes (lê-se: quase sempre) diz não  e outras vezes manda esperar [por tempo indeterminado].
Há muita diferença entre o não definitivo e o espere se o tempo de espera é indeterminado?
Nessa perspectiva Deus,  na melhor das hipótese, responde um terço das orações. Para um terço delas Ele diz não e a outra terça parte Ele ignora. É uma religião em defesa de Deus porque sempre se encontra uma explicação para o comportamento dEle. É a adoração a um Deus que precisa ser defendido, mas se Ele precisa ser defendido  não há algo errado com Ele (ou com o adorador)? No livro de Juízes há o relato de que Gideão derrubou o altar de Baal e que todo o povo da aldeia se levantou contra ele e queriam a sua cabeça. Então Joás, o pai do ousado jovem, enfrentou a turba com essas sábias palavras: “Porém Joás disse a todos os que se puseram contra ele: Contendereis vós por Baal? livrá-lo-eis vós? qualquer que por ele contender, ainda esta manhã será morto: se é deus, por si mesmo contenda; pois derribaram o seu altar” (6:31).
Se Ele é Deus porque é necessário que O defendamos? Precisamos encontrar desculpas (ou culpados) porque Ele não responde certas orações?
Essas questões não fazem parte do espiritualês. Nessa língua a pergunta mais importante é: o que fizemos de errado na adoração para que Deus não nos ouça?
Mas o espiritualês não termina por aqui. O atrasado que perdeu o ônibus diz que foi Deus que quis evitar algum problema, o pregador que não prepara o sermão ora para que Deus o ilumine na hora de pregar e depois atribui  a Deus  todos os lapsos éticos e conceituais que comete.  Descaradamente afirmam: falei o que Deus quis que eu falasse. Ou então Deus me inspirou a falar isso.
Não seria melhor sair de casa mais cedo para chegar a tempo no ponto de ônibus do que ficar tentando ver a Deus onde Ele não está? Não seria melhor estudar para preparar um sermão que dignifique a Deus, ao pregador e ao público?
A religião judaica era uma religião de adoração. Toda vida do judeu, toda atividade social desse povo, toda religião judaica estava centrada no templo. Se os judeus colhiam pouco é porque não estavam sendo fiéis a Deus ou então era porque estavam trazendo oferta indevida ao templo.
Deus, através do profeta Jeremias condenou esse pensamento. O profeta registrou a seguinte ordem do Senhor:
“Põe-te à porta da casa do Senhor, e proclama ali esta palavra, e dize: Ouvi a palavra do Senhor, todos de Judá, os que entrais por estas portas, para adorardes ao Senhor. Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel: Melhorai os vossos caminhos e as vossas obras, e vos farei habitar neste lugar. Não vos fieis em palavras falsas, dizendo: Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este. Mas, se deveras melhorardes os vossos caminhos e as vossas obras, se deveras fizerdes juízo entre um homem e entre o seu companheiro, se não oprimirdes o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, nem derramardes sangue inocente neste lugar, nem andardes após outros deuses, para vosso próprio mal, Eu vos farei habitar neste lugar, na terra que dei a vossos pais, de século em século”(Jer 7: 1-7).
A mensagem não deixa margem para especulação. Não era a adoração que garantiria a prosperidade do povo, mas a justiça, a ética, o apoio ao fraco, o respeito à vida e não praticar as violências e indecências que as outras religiões autorizavam e aplaudiam.
Ficou claro no texto que o templo, isto é, a adoração não traz garantias e que Deus prefere uma religião para a vida.
Nova Andradina 09/09/2011
Antonio Sales                             profesales@hotmail.com

domingo, 28 de agosto de 2011

Bandidos ou Heróis?


Esse meu postulado de que o deus truculento do Antigo Testamento (AT) é uma invenção judaica para justificar as atrocidades praticadas em nome da religião permite-me fazer algumas conjeturas que outro postulado não permitiria. Lembremos que a história clássica tem só um lado: o lado dos vencedores. Ninguém que morreu voltou para nos contar a causas mortis. Muito menos para contar em que proporção a luta se travou ou os desafetos que sofreram antes da reação.
Estou pensando em Coré, Datã e Abirã que segundo o relato bíblico foram sepultados por um terremoto ou vala aberta pela natureza contristada por terem se insurgido contra Moisés e contra Deus. Em Nm 16 está registrado que eles provocaram uma rebelião por terem duvidado que Moisés estivesse conduzindo-os a algum lugar. Na realidade são quatro pessoas: Coré (líder, da tribo de Levi), Datã, Abirã (irmãos) e On. Após um longo tempo vagando no deserto, passando muitas vezes pelo mesmo lugar, eles suspeitaram que Moisés estivesse enrolando o povo. Talvez tivesse  com medo de enfrentar os povos inimigos, talvez estivesse cansado, desgastado ou sentindo-se abandonando por Deus. A sua idade avançada levou-os a  suspeitar de anormalidade  na direção.
Corrupção na liderança? Influências negativas dos seus sobrinhos? Perda de objetividade? Medo? Falta de assistência divina?
Eles se puseram nas “ruas” como os “caras pintadas” para destituir um líder e eleger outro. Nós que estamos muitos séculos depois e olhamos para trás, pelo viés da história dos vencedores, vemos um fiasco, uma rebelião apenas. No lugar deles, olhando para frente, vendo o futuro incerto e suspeitando de engano o que faríamos? O que a história contará de nós?
As mulheres, no passado, eram dominadas pelo poder masculino. O futuro delas era mais incerto do que o dos homens até que em algum tempo uma(s) mulher(es) suspeitaram de que algo estava errado e que poderia ser diferente. Iniciou(aram) o movimento, pagou(aram) com a vida essa ousadia e hoje a história das mulheres (em muitos países)  é outra. Aquelas “bandidas”, “corruptoras dos bons costumes”, “desordeiras" e "avessas à ordem constituída” hoje são heroínas.
Graças à ousadia delas as mulheres de hoje, pelo menos nos países que evoluíram, são respeitadas.  Elas (as ousadas) morreram, mas o mundo não foi mais o mesmo depois delas.
Os quatro homens da nossa história ousaram tentar reverter um quadro e  morreram como “bandidos”, mas será que o mundo foi o mesmo depois deles? Será que a peregrinação não tomou novo rumo depois daquela manifestação? Será que não houve reformulação na liderança de segundo escalão?
Eles morreram, mas conseguiram incomodar e depois disso “Deus” se manifestou novamente fazendo florescer “vara de Aarão” (Nm 17). Eles romperam o silêncio divino e é possível que o povo tivesse mais voz perante Moisés depois disso. “Deus” reconheceu que precisava dar uma resposta ao povo. Finalmente, eles foram sepultados em uma vala aberta por “Deus”.  A terra os engoliu e milhares  de pessoas são engolidas hoje nos países totalitários. A terra ainda consome, nos países pobres em que a falta de assistência antecipa a vida jovens, milhares abrindo as suas fauces sem piedade e engolindo-os em seus cemitérios. Morrem sem direito a uma história digna.
Não estou defendendo Coré, Datã, Abirã e On, estou apenas conjeturando a partir do meu postulado. Não conheço nenhuma outra versão da história deles. Sei apenas o que me foi contato pelo vencedor.
Se o leitor partir de outro postulado fará outras conjeturas. A história é a mesma, mas as conclusões podem ser diferentes. Meu postulado é que os crimes e equívocos cometidos naquele tempo não devem ser atribuídos a Deus. Foi erro da liderança que, para desculpar-se, atribuía tudo à divindade como era comum a todos os povos daquela época.
Nova Andradina, 28 de agosto de 2011.
Antonio Sales                                              profesales@hotmail.com

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Postulados da Fé



Com o significado de “pedir para aceitar” um postulado é um ideia fundamental em qualquer campo do conhecimento humano. Um postulado é o ponto de partida na construção de uma teoria. É a ideia inicial que não está posta em discussão, que é aceita como verdadeira sem explicação. Pode-se aceitar ou rejeitar um postulado nunca, porém, discuti-lo.  Propor a discussão de um postulado é o mesmo que rejeitá-lo.
O postulado fundamental da fé cristã é a existência de Deus e pode ser expresso nas palavras: Deus Existe.
A existência de Deus não pode ser demonstrada ao modo dos geômetras e não pode ser negada sem deixar de ser cristão. Nenhum arrazoado é suficientemente lógico para provar a existência de Deus.
Dirá algum leitor: “mas há evidências”.
Há, sem dúvidas, evidências. Tantas evidências quantas se quiser ter porque uma evidência é resultado de um postulado. Ela é construída a partir dele.
Quem postula a existência encontra (ou constrói?) evidências a favor. Quem postula a não existência encontra (ou constrói?) evidências contra.
Há um exemplo rústico, mas que me parece eficaz para ilustrar esse pensamento. Um cônjuge ciumento postula que está sendo traído pelo outro e a partir desse ponto constrói (ou encontra?) evidências por toda parte. Se o cônjuge atrasa estava “aprontando” e se chega mais cedo está disfarçando. Se sorri para alguém está conquistando, se passa sem ver, ou distraído, está fingindo. Se atende ao telefone demoradamente está agendando encontro e se a linha cai, desligou para não ser apanhado.
Portanto, evidências são construções pessoais a partir do postulado.
Um segundo postulado da fé cristã pode ser expresso nessas palavras: Deus Se revela ao homem. Desse postulado surge a Bíblia.
Na Bíblia encontramos evidência da sua origem divina. Quem não crê que Deus tenha se revelado através dos profetas hebreus encontrará em suas páginas evidências de que ela é produto humano.
Quem é criacionista encontra evidências da criação por toda parte e quem é evolucionista, evidências da evolução. Sou criacionista, mas sei que estarei perdendo tempo em discutir com um evolucionista. Creio em Deus, mas tenho que aprender a respeitar os ateus. Creio na inspiração divina da Bíblia, mas perderei tempo se tentar convencer quem não crê.
Postulei que os judeus construíram um deus truculento para justificar as ações que cometeram contra os povos de Canaã. Guerrearam em nome desse deus e precisavam manter esse postulado em vigor. De acordo com esse meu postulado o Deus pregado por Jesus não era o mesmo deus dos judeus e já registrei nos artigos anteriores as evidências que encontrei em favor do meu postulado. Acrescento mais uma.
Os judeus rejeitaram a Jesus porque Ele não trazia nenhum resquício do deus deles ou indicativo de ser filho desse deus. O deus hebreu mandaria o seu filho para guerrear contra os romanos e o Deus de Jesus enviou o Seu filho para aconselhar o povo a andar a segunda milha. Ele disse: “E, ao que quiser pleitear contigo e tirar-te o vestido, larga-lhe também a capa. E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.”(Mt 5:40,41).
Segundo alguns comentaristas os soldados romanos costumavam humilhar um judeu fazendo-o carregar a sua bagagem pessoal por uma milha. Os judeus esperavam que o filho do deus deles fosse suficientemente ousado, como fora o pai, para humilhar os romanos. Jesus os decepcionou. Encontraram evidências de que Ele era um embusteiro. Se Ele não tinha competência para enfrentar os romanos como poderia falar em ressurreição?. Ver Mt 27:63.
Portanto, caro leitor, a sua fé está baseada em postulados. Você encontra na Bíblia aquilo que os seus postulados determinam. Você encontra na sua religião as evidências de verdade que os seus postulados lhe permitem construir.
Postulei que Jesus não é o mesmo deus dos judeus e encontrei evidências disso nas Escrituras. Se você postular o contrário de mim por  certo verá nesses mesmos textos evidências a seu favor. Faça o teste e depois comente comigo.

Nova Andradina,26 de agosto de 2011.
Antonio   Sales                                profesales@hotmail.com

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Deus contra si mesmo?


 Este texto é continuação do anterior cujo título é “Deus”.
Naquele texto supus que o Deus guerreiro e excludente do Antigo Testamento (AT) é uma invenção dos judeus. Apresentei algumas razões para isso. Essas razões são constituídas na diferença de comportamento entre esse judaico Deus e Jesus que Se apresentou como Seu representante legítimo.
Imagino que quando Jesus afirmou que Ele e o Pai eram um (Jo 14: 9,10 ) e quem vê a Mim vê o Pai estava querendo enfatizar a unidade no caráter de ambos. De igual modo suponho que Ele não teria Se confrontado com os fariseus se partilhasse do pensamento deles.
Hoje retomo essa questão de um Deus forjado pelos judeus com base em algumas contradições internas. Penso que Deus não pode ser contra Si mesmo.
Quando houve a divisão das tribos e as dez tribos do norte com capital em Samaria deixou de prestar obediência aos descendentes de Davi, os samaritanos  foram excluídos da amizade, do respeito e do direito de participar do culto no templo de Salomão com a anuência do Deus dos judeus. Jesus algum tempo depois reintegra esse povo começando o seu trabalho por uma mulher mal vista (Jo 4) até no seu próprio povoado. Parece que Ele quis mostrar que o pior samaritano não era pior do que o melhor judeu.
Ele não poupou elogio aos samaritanos.  No breve relato dos evangelhos vemo-Lo elogiando um ex-leproso samaritano (Lc 17) e a bondade de um viajante, também samaritano (Lc 10). Por que samaritano se a estória comportaria qualquer um?
No quinto livro da Torá vemos Deus excluindo os povos da comunhão com Ele e depois vemo-lo mandando Jonas pregar a um povo que não sabia distinguir a mão direita da esquerda (Jn 4:11) e inimigo dos judeus.
Como o povo judeu era exclusivista e procurou isolar-se do todos ao redor Deus o enviou ao cativeiro babilônico por setenta anos (cerca de três gerações) para que aprendesse a viver entre os outros (Dn 9).
A pergunta que fica é: como um Deus que exclui pode se preocupar com a inclusão? Estaria Deus agindo contra Si mesmo?
O povo judeu viu-se como peculiar, propriedade particular (Dt 7:6), e esqueceu-se que essa particularidade estava na responsabilidade de ir até os outros povos e incluí-los nas bênçãos celestiais. Quando Jesus expirou na cruz e o véu do santuário rasgou de alto a baixo (Mt 27:51) estava explicito o rompimento de Deus com os judeus, com aquele sistema fechado de culto, com aquela visão de divindade truculenta e excludente.
Ele não concordava com o que ensinavam sobre Ele.
Não consigo ver Jesus como o Deus do AT. Um Deus que estabelece um programa rígido e servil de adoração.
As questões que me importunam  são:
1.      Queria Deus que o povo fosse mantido sem criatividade para adorá-Lo? Nesse caso, onde estaria o livrearbítrio e a espontaneidade?
2.      Uma ovelha-homem não é igual a uma ovelha do gênero ovino. As duas devem seguir o pastor, mas,  com a mesma imbecilidade? Deus trataria a mim e a você com os mesmos critérios com que um pastor cuida do rebanho: vigiando cada passo e impedindo que “fujam” do caminho?
3.      Um pastor contenta-se com a lã, o leite e a carne das ovelhas. Elas são criadas para isso. Deus nos criou para sermos explorados por Ele? 
4.      Um pastor alegra-se com o simples lamber da mão por uma das suas ovelhas, num gesto simplório de gratidão. É o melhor que ela pode fazer. Sua limitação cerebral não lhe permite expressar-se de outra forma. Deus Se contentaria com um culto engessado, excessivamente formal? Um gesto programado, palavras repetidas são agradáveis a Deus (Mt 6:7)? Não haverá algo melhor que possamos oferecer? O que seria um culto racional (Rm 12:1)?
Essas questões fazem sentido na medida em que pensamos em que Deus nós servimos. Se é a um Deus truculento que servimos é melhor não correr riscos, e variar o culto é correr riscos. É melhor olhar o “programa impresso” porque um resvalo pode ser fatal. Se servimos um Deus sério, mas amigo, um culto racional faz sentido.
Nova Andradina 22 de agosto de 2011
Antonio Sales                                               profesales@hotmail.com

sábado, 20 de agosto de 2011

Deus


Não sou teólogo. Minhas reflexões não possuem nenhuma base teórica. Tudo o que escrevo sobre Deus é produto das minhas reflexões, do meu livre pensar. Pode ser que um dia tudo isso evolua para uma teoria, mas pode ser que não evolua para nada. Estou em construção das minhas ideias sobre questões teológicas. O leitor deve ler este artigo com cuidado e me avisar se pisei em falso.
Tenho algumas questões que me angustiam. Suponho que estamos aceitando muita informação sobre Deus que não corresponde à verdade e que não engrandece o Seu caráter.
É quando comparo o Deus do Antigo Testamento (AT) com Jesus que fico com algumas interrogações. O Deus do AT parece-me um Deus decidido, que age, que faz enfrentamentos, que derrota e que interfere nas decisões humanas. Um Deus que se impõe inclusive nos detalhes da vida cotidiana.
Jesus parece-me diferente. É um Deus tolerante, que suporta a afronta e que deixa os homens resolverem os seus próprios problemas. Ele estava mais interessado em convencer os homens da supremacia do amor, da tolerância e do diálogo do que impor a Sua vontade e fazer valer a Sua autoridade.
O Deus do AT marcou povos inteiros para morrer em favor de Israel enquanto Jesus disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem (Mt 5:44)”.
As diferenças entre os dois são tão marcantes em alguns aspectos e as semelhanças são igualmente marcantes em outros aspectos que chego a supor que muito do que é atribuído ao Deus do AT é invenção judaica.  Com isso quero dizer que os suponho fazendo certas barbaridades e depois atribuindo a Deus. Matavam em nome de Deus.
Algo semelhante ao que acontece hoje: fala-se muita bobagem em nome de Deus nos púlpitos evangélicos. Faz–se muita pressão psicológica, muita lavagem cerebral, muitas ameaças que Deus não faria ou não autorizaria, se fosse consultado.
Algumas semelhanças entre Jesus e o Deus do AT:
1.                      Jesus condenou a hipocrisia do povo judeu; condenou a exploração das viúvas e órfãos (Mt 23:14). O Deus do AT enviou profetas (Miquéias, Zacarias, etc.) para expor a hipocrisia do povo que trazia vultosa oferta ao templo a custa de “balanças” desonestas, a custa de exploração do trabalhador.
2.                      Jesus compadecia-Se dos sofredores, dava orientação e curava as suas feridas. O Deus do AT libertou o povo escravizado e constituiu sacerdotes, profetas e juízes para orientá-lo.
3.                      Jesus orientou aos discípulos que deveriam pregar a todo mundo e ensinar o que Ele pregou no Sermão do Monte (Mt 5-7). Deus conduziu Jonas a Nínive para levar a mensagem de arrependimento aos ninivitas.
4.                      Jesus disse que devemos ser luzes para alumiar o caminho do que estão em trevas morais (Mt 5:13-16). Deus disse que o povo judeu deveria ser luz para os gentios (Isa 60:1 ).
5.                      Jesus aceitou seguidoras provindas de um nível moral pouco recomendado socialmente, dispensou atenção a uma cananeia e acolheu publicanos (Mat 9:9; MT 15;Mt 26:6-13; Lc 19). Deus aceitou o culto de Raabe, de Rute e ansiava ver os gentios sendo acolhidos em Sua casa de oração (Jos 6;Isa 55).
 Há muitas semelhanças. Todas as semelhanças estão concentradas na preocupação com a salvação e a elevação do nível ético e moral do povo. Na preocupação em mostrar amor e ensinar a amar. Na libertação dos oprimidos do preconceito e anunciar “Boas Novas”. São semelhantes no cuidado com a saúde física e recuperação da autoestima das pessoas que sofrem qualquer estigma.
Há diferenças também entre Eles.
1.                      Jesus disse que o Seu reino não era deste mundo e o Deus do AT mandou destruir aqueles que não concordavam com a constituição de uma nação teocrática (Dt 7:6).
2.                      Jesus ordenou que os Seus discípulos fossem a todo mundo pregar o evangelho e o Deus do AT isolou o povo judeu, mandando que mantivesse distância dos povos ao redor.
3.                      Jesus suportou Judas entre os Seus discípulos embora soubesse das falcatruas que fazia e Deus do AT mandou apedrejar um homem porque colhia lenha num dia de sábado (João 12; Nm 15:33).
4.                      Jesus disse que Deus manda chuva e sol sobre maus e bons e Deus do prometia bênçãos somente para o povo escolhido (Mt 5:45; Dt 7).
5.                      Jesus disse que não havia razão para proibir um homem de pregar e curar somente porque este não O seguia e Deus mandou matar os feiticeiros (Mc 9:39).
6.                      Jesus disse que enviaria os Seus discípulos como ovelhas no meio de lobos e Deus mandou eliminar os “lobos”.
7.                      Jesus deixou que os homens resolvessem os seus próprios problemas familiares e Deus interferia nas decisões pessoais.
Essas semelhanças e diferenças quando se eleva em conta que Jesus disse que Ele e o Pai eram um tem me levado a supor que o Deus do AT, com as características de truculento, foi uma criação dos judeus para justificar as atrocidades cometidas contra os povos de Canaã. Querendo constituir uma raça pura e evidenciar que adoravam um Deus forte eles cometiam atrocidades em nome de Deus. Os líderes judaicos queriam dominar na forma de uma ditadura que interferia inclusive da vida particular e usavam Deus como escudo.
Há mais uma razão para  pensar assim: Jesus quando usou as Escrituras Hebraicas focalizou atenção no que elas diziam a Seu respeito e disse que os líderes judeus erravam não conhecendo as Escrituras. Eles conheciam as Escrituras que apresentavam um Deus tirano e Jesus queriam que conhecessem as Escrituras do Deus de amor (Mt 22:29;Lc 24: 27).
Campo Grande, 20 de agosto de 2011 
Antonio Sales                                                                    profesales@hotmail.com