A música não é o único fator do culto. Muitos outros fatores contribuem para a sua beleza e riqueza ou para sua pobreza e feiura.
No entanto, quase não se vê ninguém debatendo a contribuição do sermão, da oração pública, da simpatia dos irmãos, da cortesia e da atenção para um bom culto. No meio onde vivo o debate gira em torno da música. Aliás, não é nem um debate porque quase sempre é um discurso unilateral. É um falando e os outros ouvindo calados. Muitos ouvem calados porque não concordam com a forma como o “debate” é conduzido mas sabem que se falarem em nada contribuirão porque o discurso está pronto e o “debate” é só de nome.
O curioso é que querem nos convencer de que a música é o mais importante fator do culto. Qual a razão? A explicação é simples, simplista e absurda. Primeiro dizem que é porque é a arte preferida de Satanás. Depois dizem que ele foi regente do coro celestial e, portanto, um perito em música. O que tem isso a ver com o que estou dizendo?
Ora, se ele é tão competente quanto se diz então ele deve saber capinar, cuidar de animais, Matemática, Física, Medicina e outras tantas coisas mais. Deve falar a verdade de vez em quando, ser bom esportista e dominar a música clássica também. E daí? Não vou fazer nada porque, supostamente, é de conhecimento dele?
Essas explicações deixam-me atordoado. Se é a arte preferida de Satanás deveria fazer parte da adoração? O fato de ele ser perito em música tem algo a ver com aquilo que faço ou canto? Estão supondo que ele é a minha inspiração? Se é ele que também inspira a inveja, a intriga, o fuxico e a desordem, então tudo o que se faz em algumas igrejas é inspiração dele? O que mais se faz em algumas igrejas é cantar e intrigar.
Ninguém se preocupa com a pobreza dos sermões, com a discrepância de uns e o óbvio inútil de outros.
Quando se vai ao médico com uma fratura exposta, gritando de dor, e o profissional diz que está com dor porque está com uma fratura exposta ele falou o óbvio inútil. Primeiro porque o paciente já sabe o diagnóstico e em segundo lugar porque ele espera uma proposta de solução, uma palavra de esperança.
Quando um pregador afirma que a violência que há no mundo e a falta de Cristo no coração das pessoas ele falou o óbvio inútil. Quando ele diz que a sua igreja está apática porque falta o amor, falou o óbvio inútil. Quando afirma que se deve deixar o pecado, fala o óbvio inútil. Quando diz para tirar a inveja da bagagem fala o óbvio inútil. Quando afirma que o mundo invadiu a igreja falou o óbvio inútil. São coisas que todos sabem, só não estão conseguindo fazer. Todo mundo sabe disso, pois se estamos no mundo, convivemos no mundo, aprendemos no mundo, usufruímos das benesses do mundo, como podemos deixar o mundo na hora de ir para a igreja? Será que eles imaginam que o mundo é como um casaco que pode ser deixado em casa no verão?
O mundo é como uma roupa de uso contínuo, com a qual se está vestido: se estou nela então ela tem que estar em mim. Não se deixa o mundo assim quando se quer tão pouco se tira a inveja da bagagem com um passe de mágica.
O mundo é como uma roupa de uso contínuo, com a qual se está vestido: se estou nela então ela tem que estar em mim. Não se deixa o mundo assim quando se quer tão pouco se tira a inveja da bagagem com um passe de mágica.
Por que não nos ensinam como administrar o conflito entre os interesses do mundo e os interesses da igreja?
Ninguém reclama disso? Ninguém vai exigir melhora nos sermões?
Lembro-me de uma ilustração que li algures. Dizia que um jovem teologando de uma igreja congregacional se despontava como excelente orador e por isso no dia da formatura foi convidado para pastorear uma igreja grande e abastada. Foi contratado com um invejável salário.
Antes de chegar ele anunciou que iria desbancar diversos deuses cultuados na igreja. Ficaram na expectativa. No primeiro domingo ele pregou sobre o “deus tabaco”. Falou sobre os seus malefícios e sobre a incoerência de um cristão cultivar ou vender o produto e anunciou que no próximo domingo atacaria o “ deus álcool”. À saída ficou na porta para cumprimentar os membros que foram saindo em silêncio. Por último um diácono o procurou e disse-lhe: o pastor sabia que nesta igreja vários dos membros mais ricos cultivam e vendem tabaco?
Ele não se intimidou e no próximo domingo, com o mesmo entusiasmo e agressividade desbancou o “deus bebidas alcoólicas”. À saída o mesmo ritual e a mesma advertência do diácono: muitos dos que pagavam o alto salário do pastor eram donos de destilarias e vendiam no varejo e no atacado a maldita bebida. Mas ele não se intimidou e disse que manteria o título do sermão do próximo domingo: “o deus pesca predatória”.
Na próxima sexta-feira, à tardinha, o diácono o procurou e avisou-lhe que a comissão da igreja, composta em sua maioria por ofendidos em seus dois últimos sermões e que seriam ofendidos pelo próximo sermão, estaria se reunindo naquela noite para decidir se ele seria ainda pastor daquela igreja. Estava em jogo, inclusive, se ele pregaria ou não o sermão de domingo. O jovem se deu conta que precisava fazer alguma coisa para se manter no cargo e perguntou ao diácono onde eles pescavam e foi informado de que era nos rios da região. Teve uma idéia: pediu que se ele não pudesse evitar a sua demissão que, pelo menos, insistisse para que o deixassem pregar naquele domingo.
O diácono teve êxito e naquele domingo ele foi fazer o que seria seu “último” sermão. Pregou com entusiasmo e com palavras agressivas contra a “pesca predatória em alto mar”, em águas intercontinentais. Conseguiu salvar o seu ministério.
É isso que ouço hoje. Ou falam sobre o óbvio inútil ou sobre “pesca predatória em águas intercontinentais”. Nada serve para nada ou muito pouco se aproveita.
As famílias em desespero ficam sem uma palavra de ânimo, os jovens ficam sem orientação, os pais ficam sem saber como educar os filhos na perspectiva daquela comunidade, os pecadores ficam sem saber como superar a crise existencial decorrente, os traídos ficam sem saber como lidar com o perdão, os desanimados saem sem ouvir uma palavra de conforto, os desprezados saem sem receber um sorriso acolhedor, os desempregado saem sem receber orientação sobre como proceder numa entrevista, os deprimidos saem sem ouvir que a ciência moderna tem alívio para a sua dor, o invejoso sai sem saber porque é dominado pela inveja, o arrogante sai sem saber o mal que causa e assim por diante.
Não daria para ensinar sobre tolerância e respeito? Não daria para ocupar o tempo ensinando com superar o legalismo e se apropriar da graça? Não daria para contextualizar o texto bíblico falando sobre a condição social do povo, suas crenças, na época em que foi escrito? Não daria para recontextualizar o texto dizendo o que serve e que não serve para hoje?
Não seria possível observar as necessidades da membresia e tratar desses assuntos sem afetar as pessoas, isto é, atacar o problema sem identificar a pessoa?
Não está na hora de mudar? Por que se preocupar tanto com a música se é ela que ainda dá um tom de graça ao culto? Não será por isso que nas igrejas se canta mais do que se prega? Cantar instrui pouco, mas alivia o fardo. Os sermões não instruem nada e ainda sobrecarregam a vida com inutilidades e sentimento de culpa .
Quero concluir dizendo: parabéns aos músicos que inovam e criam. Pêsames aos pregadores que copiam e aos “debatedores” unilaterais.
Campo Grande, 14 de outubro de 2011
Antonio Sales profesales@hotmail.com